A FLORESTA DE JONATHAS

25/05/2014 19:43

 

Nota do Site: 1/ 5

 

     A Floresta de Jonathas, filme dirigido por Sérgio Andrade e que encontrou-se em cartaz em Manaus, é uma realização curiosa: enquanto seus realizadores insistiram em promovê-lo como um “sensível filme de arte” ou mesmo um eficiente “cinema de observação”, não passou, na verdade, de um desleixado esforço em tentar criar algo minimamente compreensível ou interessante, concebendo ao invés disso uma narrativa sem pé nem cabeça que se prejudicou ainda mais por causa de sua “presunção artística”.

     Presunção essa que só serviu para esconder as incontáveis deficiências de um filme que claramente não sabe pra onde está indo. A começar pelo roteiro que, contando a história de uma família que vive da venda de frutas numa barraca localizada à beira da estrada, peca justamente por não desenvolver com mais dinamismo sua história, causando dessa forma um inevitável tédio na platéia e uma “morosidade narrativa” que só prejudica o andamento da história. Assim, mesmo que a intenção do diretor fosse conceber uma trama que optasse pela “observação” daquele cotidiano, seu principal erro foi estender demais esta abordagem, pois de nada justifica o filme ter seu primeiro ponto de virada depois de quase 01 hora de projeção. Além disso, os diálogos pobres e vazios demonstram que o roteiro, no mínimo, carecia de mais um ou dois tratamentos para aí sim fazer algum sentido.

     Além disso, a demora em dinamizar sua narrativa prejudica também a montagem e o ritmo do filme. Em vários momentos, os takes responsáveis em tentar criar metáforas visuais ou mesmo cenas de transição poderiam ter seu ponto de corte antecipado em alguns segundos que fariam toda a diferença na decupagem final. Mas se o problema da montagem fosse apenas esse... Reparem, por exemplo, na incoerência na passagem de uma cena pra outra, algo recorrente em inúmeros momentos do filme, mas que ganha “destaque negativo” em dois momentos: o primeiro é a cena onde o protagonista Jonathas observa um grupo de skatistas passar por ele e aí, num corte seco, já vemos esses skatistas diante dele, o encarando, sem a menor fluidez ou lógica. Aliás, a cena é tão malconduzida que arrancou risos involuntários da platéia onde eu me encontrava.

     O outro – e mais grave – instante em que a montagem prejudica a narrativa é justamente no clímax, quando determinado personagem se perde na mata. A rigor, toda a seqüência é “destruída” pela montagem: de uma hora pra outra o tal personagem que se divertia com os amigos, já aparece sozinho, perambulando. Inexplicavelmente, em outro take, temos uma implausível cena de nudez que só foi inserida no filme sei lá porquê. Logo na seqüência, já o vemos perdido e desesperado. Em nenhum momento as cenas se associam diegéticamente umas com as outras e, para completar, a passagem de tempo que a seqüência deveria sugerir nunca é bem esclarecida, ficando para nós a impressão de que no mínimo apenas um ou dois dias se passaram naquilo ali, quando na verdade deveriam ter sido vários dias.

     Para piorar, quando tal personagem é encontrado, ao invés da câmera fixar aquele frame a fim de estabelecer o clímax do filme, ela simplesmente “sobe”, abandonando os personagens e indo parar na copa das árvores (!!!). Aliás, a fotografia do filme é de um desleixo constrangedor. Adotando uma fotografia “chapada” sem a menor preocupação de estabelecer a profundidade de campo (talvez pela dificuldade logística de se filmar na selva, mas isso não é desculpa), toda a diegese de A Floresta de Jonathas basicamente encontra-se sempre em primeiro plano, com pouco espaço entre os objetos, personagens e câmera. Além disso, em planos médios ou conjuntos, por exemplo, raramente vemos os personagens abrindo a boca, o que é grave. Vejamos o momento em que o personagem Juliano briga com o pai: o foco está neles, entretanto, o conteúdo da fala refere-se diretamente à mãe, que está no canto do quadro, fora de foco (o foco devia estar nela também). E o que é mais grave, em determinado momento, a personagem simplesmente sai de quadro, algo que ocorre em inúmeros outros momentos, sendo mais constrangedor o instante em que o ator Chico Diaz, percebendo que seu companheiro de cena está para sair de quadro, simplesmente o puxa de volta.

     E não é só Chico Diaz que está deslocado neste “longa”. Todo o elenco é tão over quanto Nicolas Cage no auge do histrionismo. Begê Muniz, aquele que deveria ser a força dramática do filme, simplesmente não consegue definir os diferentes tons que seu personagem exigiria (vejam por exemplo o instante em que seu personagem, num acesso de fúria, destrói as frutas de sua barraca... tão fake que apenas provoca risos constrangidos). Ítalo Castro, que interpreta Juliano, é outro que se mostra tão profundo quanto um pires e Francisco Mendes, o pai, consegue ser tão caricato e exagerado quanto os outros dois protagonistas. É ele, por exemplo, o sujeito que é “resgatado” por Chico Diaz em cena. E por último temos Viktoryia Vinyarska, a americana/ ucraniana que embora levemente carismática, não consegue se desprender de um roteiro tão mal-construído que não consegue defini-la como promíscua ou... sei lá o quê!

     Sendo ruim em todos os aspectos, fico imaginando o porquê dos realizadores insistirem tanto em taxar esta “coisa” como um “filme de arte”. Aparentemente, para eles, “filmes de arte” tem a ver com aquelas narrativas chatas e enfadonhas, cujo roteiro não entendemos porque “é complexo” demais para nossa percepção. Aí a principal justificativa que eles tem é dizer que o filme deles é bom, fomos nós que não entendemos. Somos nós que temos que treinar nosso olhar para essa “obra-prima” local, para esse “marco” da cinematografia regional. Sejamos sinceros, A Floresta de Jonathas é um filme ruim, do tipo que deixa o espectador desapontado e revoltado por ter gasto seu dinheiro num filme que poderia ser bom, mas se recusou a sair do lugar-comum optando pelo amadorismo e presunção. Aparentemente, o ego de Sérgio Andrade é tão inabalável quanto o de M. Night Shyamalan. Isso não é arte, é apenas uma experiência esquecível que tem como único mérito o fato de, bem ou mal, ter aberto as portas dos cinemas locais para os filmes amazonenses de longa-metragem. Então, que venham outros filmes infinitamente melhores do que este!

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