CAMPOS DOS SONHOS

25/05/2014 17:36

 

 Nota do Site: 5/ 5

 

     Certo dia, enquanto caminhava em sua plantação de milho, Ray Kinsella (Kevin Costner), um simplório agricultor do Iowa ouve uma “voz” sussurrante que lhe diz: “Se construir, ele virá”. Esta voz repete-se algumas vezes, deixando-o intrigado até o instante em que Ray tem uma visão de um campo de beisebol em sua fazenda. Convencido de que as vozes e a visão que teve possam estar relacionadas a um antigo ídolo de seu pai – “Shoeless” Joe (Ray Liotta) – Ray imediatamente dá início à construção do campo de beisebol, mesmo que isso tenha sérias implicações junto às precárias economias da família, bem como junto aos outros comunitários, que passam a julgar Ray como “excêntrico”. Tempos depois, a “mágica” acontece. O espírito de “Shoeless” Joe surge no campo recém-construído, passando a visitá-lo constantemente junto com seus antigos parceiros de time. Entretanto, Ray continua a ouvir a “voz”, que agora lhe diz: “alivie a dor dele”, levando-o diretamente à porta do recluso escritor e pacifista Terence Mann (James Earl Jones, numa interpretação fictícia do escritor J. D. Salinger) e junto à ele, vão ao encalço de outro ex-jogador, “Doc” Graham (Burt Lancaster), cuja trajetória no beisebol foi trocada pela medicina.
 
     Como podem ver, Campo dos Sonhos é uma fábula construída a partir de um dos mais populares esportes americano e tendo como pano de fundo a temática universal da relação entre pais e filhos. Objetivo desde os primeiros minutos de projeção, Campo dos Sonhos é um daqueles filmes que vai encantando-nos até o momento em que suas intenções reais são reveladas, sendo tocantes justamente por lidarem com temas tão próximos a nós. Afinal de contas, quem entre nós não gostaria de ter uma segunda chance para fazer ou dizer algo diferente daquilo que aconteceu de fato? Como não se emocionar com os esforços de Ray em busca de algo que nem ele mesmo sabe direito o que é, simplesmente porque sabemos que a jornada nos será tão satisfatória quanto o belíssimo arco dramático deste carismático protagonista?
 
     Dirigido por Phil Alden Robinson e adaptado por ele mesmo a partir do livro Shoeless Joe, de W. P. Kinsella, o filme é hábil em mostrar-se otimista sem ser piegas, sendo direto e sem “embromações”, estabelecendo um ritmo rápido sem sacrificar o desenvolvimento dos personagens. Neste sentido, não nos causa espanto algum que entre a primeira “voz” ouvida no milharal até o momento em que Ray se encontra com Terence, por exemplo, um universo de situações já ocorreu, e isso em pouco menos de que 30 minutos!
 
     Aliás, o insert de imagens introdutório é fabuloso neste sentido, pois nos sintetiza de forma satisfatória a história da família Kinsella sem precisarmos de cenas extras desnecessárias e prolixas. Além disso, os três outros personagens secundários já são introduzidos com a mesma eficiência antes mesmo de entrarem em cena: Shoeless Joe, a partir da narração sobre imagens inicial; Terence Mann, na cena em que pais discutem sobre censura de livros e; Doc Graham, nas investigações prévias de Ray e Terence.

     Comovente, sobretudo em seu terço final, Campo dos Sonhos em nenhum momento deixa de lado seu aspecto de fábula. Por causa disso, não é de se espantar que as vozes, visões e sonhos de Ray não sejam racionalizados de forma mais sistemática por aqueles que interagem diretamente com o protagonista. Assim, ao ouvirmos junto com Ray a “voz” no milharal, acreditamos de imediato no tom fantástico daquela narrativa, aceitando a “suspensão de descrença” necessária para que a narrativa dê certo. Neste sentido, como espectadores, ficamos apenas esperando pelo desenrolar dos acontecimentos, torcendo para que os fatos ali desenvolvidos supram nossa necessidade de epifania que vínhamos alimentando desde o início. Assim, os acontecimentos do ato final não só supre nossa epifania como também nossa catarse pessoal, ao trazer o verdadeiro significado do filme.

     Catarse esse que só é possível também graças à tocante interpretação de seu fabuloso elenco, com destaque para Kevin Costner cujo otimismo de Ray mostra-se essencial para embarcarmos em sua jornada, enquanto que Ray Liotta e James Earl Jones dão dignidade e autoridade à seus respectivos personagens com destaque para Earl Jones, que transformou a descrença de Terence Mann numa crença absoluta na idéia de um lugar ilógico mais igualmente mágico. E por último e como não poderia deixar de ser, o filme ainda traz um dos melhores atores que o cinema já produziu em seu último e brilhante trabalho. E bastaram duas cenas para que Burt Lancaster se despedisse de forma honrosa e tocante do cinema. E duvido que um cinéfilo de verdade não tenha se emocionado com a cena em que um figurante lhe diz obrigado”, recebendo de volta um sorriso tão expressivo quanto inesquecível.

     Trazendo uma tocante trilha sonora de James Horner, além da eficaz fotografia de John Lindley, Campo dos Sonhos é um daqueles filmes em que não precisamos entender de beisebol e de seus ídolos para compreender a paixão que este esporte exerce em suas platéias. O beisebol aqui é apenas uma metáfora para algo tão simples quanto praticar um esporte: a oportunidade que teríamos caso tivéssemos a mesma chance de Ray, a de conversar com aqueles que foram definitivamente importantes em nossa vida, e que, por uma razão ou outra, não tivemos a oportunidade de dizer “obrigado”!

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