CONTA COMIGO

24/05/2014 21:16

 

 Nota do Site: 5/ 5



     Na década de 1980, enquanto que obras-primas incontestáveis como Gandhi, ET, Star Wars, Indiana Jones, De Volta Para o Futuro, Touro Indomável e Amadeus ganhavam destaque e mérito, uma safra de 'outros' filmes de baixo orçamento e tecnicamente pouco ambiciosos conquistavam o imaginário cinéfilo daquela geração com histórias simples mais que cativavam por sua sinceridade e respeito ao seu público. E são inúmeros aqueles que permeiam nossa lembrança: Karatê Kid, Os Goonies, Os Heróis Não Têm Idade, Garotos Perdidos e, é claro, Conta Comigo, talvez o filme mais querido desse segundo time, ao lado, é claro, de Curtindo a Vida Adoidado (também lembro com carinho de O Rochedo de Gibraltar, mas esse é minha subjetividade falando).

     Adaptado por Raynold Gideon e Bruce A. Evans a partir do conto The Body de Stephen King, Conta Comigo gira em torno dos amigos Gordie Lachance (Will Weatton), Chris Chambers (River Phoenix), Vern Tessio (Ryan O'Connell) e Teddy (Corey Feldman) que partem em busca do corpo de um garoto desaparecido, com a finalidade de obter reconhecimento e fama pelo feito. Dessa forma, enquanto caminham em direção ao lugar em que suspeitam encontrar o corpo do garoto, os quatros amigos acabam enfrentando uma pequena odisséia que irá marcá-los para o resto da vida, num processo de auto-descoberta que será fundamental como experiência para o crescimento e o amadurecimento de ambos.

     Dirigido com eficácia por Rob Reiner, a narrativa tem início com Gordie, já adulto (interpretado por Richard Dreyfuss), devastado pela notícia da morte de Chris. A partir daí, este episódio trágico dá início à uma rememoração sobre a época em que Gordie e Chris, amigos inseparáveis, conviviam junto à Vern e Teddy. Estabelecendo desde o início que a convivência com Chris no inicio de sua adolescência foi fundamental para moldar sua personalidade futura, o roteiro volta no tempo numa época em que certamente foi a mais importante fase da vida desses amigos, sobretudo por mostrar que a aventura que será retratada nos próximos 89 minutos foi uma espécie de “rito de passagem” daqueles personagens, e que será melhor compreendido no final.

     Usando da idéia da “busca pelo corpo desaparecido” como desculpa para desenvolver sua história (um Mcguffin* clássico), o conto de King assim como o roteiro de Gideon e Evans, se utilizam deste recurso como metáfora óbvia da busca pelo auto-reconhecimento e da auto-descoberta destes personagens que, tendo propósitos claros em sua jornada (fama e heroísmo), não fazem idéia das implicações (físicas e emocionais) que esta aventura irá lhes render. Assim, se no início no filme cada protagonista apresenta uma personalidade bem estabelecida, ao final cada um apresentará uma “evolução emocional” decorrente desta jornada.

     Neste sentido, se no início Gordie se mostra sensível e imaginativo, com uma insegurança oriunda da difícil relação com os pais que o culpam pela morte de seu irmão mais velho David, é na convivência com Chris e também a partir das complicadas situações em que os quatro amigos se metem, que Gordie passa a mostrar um comportamento bem mais seguro e maduro, ao final. Por outro lado Chris, que claramente é o líder do pequeno grupo, esconde por baixo de sua “máscara” de garoto durão, um sujeito afável e com claros problemas familiares, evidentes na cena em que ele desabafa sobre algo com Gordie. Fechando o elenco, temos o covarde Vern que além de representar o clichê do “gordinho trapalhão”, presente em tantos filmes similares, consegue aos poucos mostrar-se bem mais complexo do que aparentava originalmente. E por último o corajoso Teddy, cuja relação com o pai o põe na complicada posição de ter sempre que provar algo aos amigos, o que sabemos ser desnecessário no final das contas.

     Fechando o elenco, temos Kiefer Sutherland no papel de “bad boy” que o marcou em vários filmes seus da década de 80 (cujo auge é certamente o vampiro de Garotos Perdidos), além de Richard Dreyfuss, que mesmo tendo pouco tempo de cena, é eficiente ao retratar a melancolia de um sujeito que, em certo ponto da sua vida, repassou por alguns instantes as principais memórias de sua adolescência e se deu conta de que aquelas experiências, mesmo ajudando a moldar sua personalidade na fase adulta, trouxe o inevitável adicional de que aquelas experiências não voltariam mais, ficando presas às inconstâncias da memória afetiva.

     Pois é exatamente isso que o filme trata (e por isso o filme é tão querido por gerações inteiras de cinéfilos cujo imaginário foi formado nessa época): o filme trata do inevitável “rito de passagem” da fase infantil para a fase adulta. Quando Gordie lembra, nostálgico, de que “nunca mais [tivera] amigos como aqueles que [teve] aos 12 anos”, ele está constatando algo inevitável e implacável: podemos ter os mesmos amigos de outrora, mas as afinidades e até mesmo a cumplicidade podem ter mudado, como se o “encanto” de “ontem” tivesse se perdido “hoje”. Somos a soma de nossas experiências, e crescer nos traz a inevitável “seleção” de nossas afinidades. Na bifurcação de nossas vidas, pegamos caminhos opostos e aqueles que ontem foram fundamentais para o compartilhamento de nossas experiências hoje não passam de mera lembrança no quadro geral de nossa memória. São fagulhas que perduram porque insistimos em manter suas chamas por algo que sabemos que nunca mais será o mesmo.

     Assim, se é verdade que “pessoas vão e vem como garçons num restaurante”, é verdade também que se lembrar delas com nostalgia exacerbada anulam nossa percepção para as novas experiências e, claro, para a construção de novas lembranças. Se o momento em que Chris Chambers simplesmente desaparece diante de Gordie representa sua “saída” da vida de seu amigo, este plano é logo substituído pela belíssima seqüência final em que o adulto Gordie abandona suas nostálgicas memórias e se põe a brincar com seus filhos, compartilhando novas experiências com aqueles que para ele, realmente importam naquele momento, fechando o filme com a belíssima mensagem de que as pessoas podem sim serem breves em nossas vidas, mais os instantes compartilhados conosco permanecem pra sempre em nossas mentes.


(*) Mcguffin: Freqüentemente associado à Hitchcock, é um dispositivo ou elemento da trama que chama a atenção do espectador, ou dirige a trama. Em geral, é algo com que todo personagem está preocupado. [...] é, essencialmente, algo em torno do qual a história toda é construída e, ainda assim, não tem nenhuma relevância real. Ou seja, é sobre o que o filme diz que se trata, mesmo que ele realmente não seja. (Extraído do site: www.dicasderoteiro.com). No caso deste filme, o Mcguffin é a busca pelo corpo, quando na verdade o filme se trata de algo bem mais intimista.

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