GRAVIDADE

24/05/2014 17:19

 

 

Nota do Site 55
 
 

     Uma das primeiras cenas deste recente e magnífico trabalho do mexicano Alfonso Cuarón (seu último havia sido o clássico Filhos da Esperança), acompanhamos os protagonistas (Clooney e Bullock) em off conversando trivialidades com o controlador da missão em Houston (Ed Harris, voz) enquanto executam ações de reparo no satélite Hubble. O fabuloso desta cena é que enquanto fazem isso, a câmera de Emmanuel Lubezki simplesmente “flutua” ao redor dos personagens, indo de um ponto ao outro sem nenhum respeito ao “eixo” e sem nenhum corte aparente. Essa cena em particular já é um indício de qual abordagem Alfonso Cuarón e sua equipe irão adotar em Gravidade, sendo beneficiado pelos belíssimos planos da Terra ao fundo e tendo ainda a escuridão do universo como testemunha dramática de tudo aquilo que virá dali em diante.

     Escrito por Cuarón ao lado do filho Jonás, o filme gira em torno da especialista dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) e do veterano astronauta Matt Kowalski (George Clooney) que após serem atingidos por uma “chuva de detritos” tem seu módulo espacial destruído e com isso, acabam sendo colocados à deriva no espaço, tendo que a partir daí unir esforços para juntos chegarem num módulo espacial chinês que os possa colocar em processo de “reentrada na Terra”.

     Descartando de imediato qualquer tipo de firula ou evento narrativo mais “rebuscado” em prol de um tratamento mais verossímil, o roteiro dos Cuarón usa da própria ciência como recurso dramático, trazendo para o projeto uma plausibilidade que o torna eminentemente mais eficaz, lembrando assim, em tom e gênero, clássicos como 2001 – Uma Odisseia no Espaço Contato. Assim, se aproveitando da premissa de “ficar à deriva no espaço” como forma de criar drama e urgência, o roteiro dos Cuarón se aprofunda na ideia de ausência de gravidade para estabelecer que nesta narrativa o ambiente em questão é o principal adversário da dupla de atores. Além disso, a montagem do filme é fabulosa justamente por nos passar a impressão de que a história transcorre quase que em tempo real (falaremos da montagem mais adiante).

    Reforçando esta abordagem, temos a fotografia do sempre magnífico Emmanuel Lubezki, que aqui radicaliza com composições soberbas ao se apropriar adequadamente do conceito de “falta de gravidade”, ao criar planos que simplesmente não respeitam o conceito de “eixo”, colocando dessa forma sua câmera em qualquer ponto e apontando para qualquer lugar do “cenário” que, nesse caso, beneficia-se pela enorme e literal profundidade de campo, beneficiando-se, neste sentido, do fato do filme ter sido concebido para o 3D, algo que valoriza e muito o esplendido trabalho de Lubezki (que por sinal foi merecidamente premiado com o Oscar).

     Assim, se em sequências como a descrita no primeiro parágrafo desta resenha, a câmera parece “flutuar”  ao redor dos protagonistas enquanto estes interagem ou fazem algo, esta lógica é logo modificada em instantes eminentemente mais intimistas como aqueles onde a câmera simplesmente “adentra” no capacete de Stone, assumindo uma perspectiva subjetiva da narrativa e variando, dessa forma, os mais diversos “pontos de vistas” construídos pelo filme, já que, a rigor, quando os planos assumem um caráter mais objetivo, eles nunca deixam de ser uma testemunha ocular daqueles acontecimentos, pois a impressão que passa é que sempre estamos “gravitando” ao lado dos personagens.

     E isso sem cortes aparentes. Aliás, a montagem de Mark Sanger e Alfonso Cuarón é impecável na construção cuidadosa dos planos. Além da já citada sequência, cada cena de maior impacto, por exemplo, além de um fabuloso trabalho de mixagem e de edição de som, beneficia-se por esta noção de estar se passando em “tempo real”, criando tensão e urgência cada vez que ocorre. Além disso, nas cenas em que podemos observar cortes secos, Cuarón exibe uma metodologia impecável ao restringi-los, na maior parte do tempo, às cenas passadas dentro de módulos espaciais em momentos de maior tensão.

     Entretanto, é fabuloso como Cuarón investe tempo na narrativa para investir em simbolismos que, mesmo óbvios, surgem belos e bastante significativos, como o momento em que Ryan Stone, após se livrar de sua roupa de astronauta dentro do módulo espacial russo, assume uma posição quase fetal de relaxamento que serve para traduzir sua frágil posição naquele estado de coisas. Ou mesmo os planos onde “gotículas” de água atravessam o quadro, que produzem uma poética metáfora visual com o próprio ato de Stone “flutuar” dentro do módulo onde ela se encontra.

   Trazendo ainda Sandra Bullock num fantástico desempenho, Gravidade beneficia-se do fato de se mostrar uma narrativa limpa, sem desnecessários subtextos ou tramas paralelas. Claro que, como qualquer drama clássico, era fundamental que a protagonista trouxesse ao filme um conflito particular anterior que a levasse a se questionar do porque ela estivesse ali, algo que fica bastante claro na “cena-delírio” ocorrida no final do segundo ato que, mesmo batida, não deixa de ser eficaz em sua função, pois é aí que Bullock como interprete começa a ter seus melhores momentos dramáticos até o belíssimo instante final.

   Instantes que fazem de Gravidade um belíssimo filme e que comprovam mais uma vez a força de Cuarón como realizador e sobretudo como criador de novas linguagens. E que venham mais projetos deste fantástico diretor e que tenham a jovialidade e entrega que seus filmes sempre apresentam. 

 

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