GUERRA AO TERROR

24/05/2014 21:40

 

Nota do Site: 5/ 5


     Atenção: contém spoilers!


 

     Certos filmes vencedores – e merecedores – do Oscar, são estranhamente esquecidos ou deixados de lado logo que o frenesi da premiação passa. Talvez porque não tenham tido o mesmo apelo comercial que outros ou talvez pelo fato de, advindos de uma linha mais independente de produção, não tenham a pirotecnia como objetivo, nem as lágrimas exageradas como recurso, mas sim a simples discussão de ideias, mesmo que embaladas numa roupagem menos glamourizada.

     Guerra ao Terror é um daqueles filmes que conseguem, a partir de uma abordagem inteiramente racional, ser altamente bem-sucedido justamente por expor, metodologicamente, o cotidiano de um grupo de soldados americanos responsáveis por desarmar bombas nas ruas e becos do Iraque. Na medida em que o filme avança, presenciamos a dinâmica dos soldados em campo, pondo em prática suas estratégias de trabalho para o desarme das bombas e a preocupação constante com possíveis insurgentes espalhados em prédios abandonados ou entre a multidão. Além do mais, observamos estes soldados na intimidade de seus dormitórios e do quartel-general, constatando como se comportam quando estão de folga.

     Esta abordagem, é bom ressaltar, é a base da estrutura narrativa adotada pela diretora Kathryn Bigelow e pelo roteirista Mark Boal. O filme, neste sentido, não segue uma estrutura linear com uma história tradicionalmente definida. Assim, o fascinante nesse filme é justamente acompanhar esse cotidiano e perceber, a partir daí, toda a gama de informações necessárias para que tenhamos nossas próprias opiniões acerca do filme e, conseqüentemente, do próprio pano de fundo, a guerra do Iraque.

     Estabelecida sua estratégia de abordagem, Bigelow opta por ressaltar, em suas tomadas, toda a preocupação e a paranóia resultante das ações deste soldado e, acertadamente, adota a “câmera na mão” nestas seqüências, dando um caráter semi-documental ao longa, ao mesmo tempo em que nas cenas mais violentas, seja a vez da “câmera lenta” retratar e ressaltar as conseqüências destruidoras das explosões e dos tiroteios. Vale ressaltar, aqui, que estas tomadas são acentuadas por longas seqüências silenciosas, onde os soldados avançam e percorrem corredores, ruas ou ficam parados em espaços abertos, tentando adivinhar e/ ou antecipar as ações contrárias, nos inquietando justamente por estabelecer, com estes recursos, um clima de tensão crescente que nos deixa sempre no escuro acerca do que possa acontecer e, neste sentido, quando a ação chega, sempre nos pega desprevenidos.

     Dessa forma, Bigelow e Boal fogem do lugar-comum e evitam que o longa se transforme num filme de ação descartável que adote o maniqueísmo barato como elemento de convencimento de sua platéia dando aos espectadores subsídios para que estes posicionem-se a respeito da matéria sem cair em armadilhas ideológicas – para o bem ou para o mal.

     Além disso, cada personagem do filme demonstra uma faceta que enriquece nosso entendimento sobre o longa, com destaque, obviamente, para o protagonista vivido por Jeremy Renner, mas sem nos esquecermos dos demais coadjuvantes, com destaque para o soldado que, cada vez mais afetado pelas conseqüências de seu trabalho, vê na terapia com o psicólogo do exército uma válvula de escape numa tentativa de manter sua própria sanidade. Contudo, é lícito observar a postura deste mesmo psicólogo ao aceitar ir a campo com os soldados e constatarmos como sua postura ingênua frente aos transeuntes pode custar caro para o seu próprio pelotão.

     Voltando ao protagonista, o personagem de Renner é um daqueles soldados cujo trabalho sempre é encarado por ele com fascínio, mesmo que suas escolhas em campo ponham em perigo seus parceiros e sua própria vida. Contudo, o personagem de Renner nunca deixa de se tornar fascinante justamente por não se deixar embrutecer pela violência vivenciada, e sua preocupação com um jovem ambulante com o qual estabelecera um elo amigável torna-se tocante e trágica, se levarmos em consideração que este envolvimento sempre esteve fadado ao fracasso, naquele contexto brutal.

     Trazendo um desfecho lógico e coerente com tudo que fora apresentada até ali, Guerra ao Terror é um filme obrigatório a qualquer um que queira imergir naquela temática. E ver o protagonista pronto para recomeçar, em novas missões de desarmamento de bombas, é o retrato claro de um soldado que acostumou-se de tal forma com a guerra que não consegue se sentir à vontade fora daquele ambiente. A guerra obviamente o emudeceu para sempre.

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