INDOMÁVEL SONHADORA

24/05/2014 19:33

 

 Nota do Site: 5/ 5


     Numa precária comunidade localizada às margens de uma barragem em alguma cidadezinha americana vive Hushpuppy, uma garotinha de 06 anos e seu pai, Wink. A comunidade denomina-se Bathstub e se mantém graças aos fortes laços de solidariedade de seus moradores, permitindo certa organização social num espaço onde a miséria e a precariedade predominam, dando um caráter incômodo e inquietante ao lugar, uma vez que a brutalidade dos modos daqueles indivíduos substituem qualquer traço de sutileza e sensibilidade que eles poderiam ter.

     Neste contexto, os roteiristas Lucy Alibar e Benh Zeitlin (diretor do filme) retratam Bathstub através dos olhos da pequena Hushpuppy, que enxerga aquele lugar sob uma perspectiva romantizada e cheia de fantasia, tendo aquilo como sua única referência de mundo ou sociedade e enxergando a vida fora da barragem com perigo e receio (os “de fora”, segundo ela), representando-os visualmente como uma manada de javalis pré-históricos que, viajando em direção àquele lugar, simbolizam as ameaças que a comunidade enfrenta, seja por meio de tempestade ou através de agentes do governo que podem surgir de uma hora pra outra, já que Bathstub não passa de uma comunidade clandestina que resiste/ insiste em não sair dali.

     O simbolismo dos javalis, aliás, é um recurso que se constrói organicamente no filme, nascida de uma aula presenciada por Hushpuppy e florescendo livremente em seu imaginário, dando-lhes sentido particular. Exemplo disso é a cena em que a jovem, ao ouvir o som de um relâmpago, relaciona-o à geleiras quebrando e se derretendo, dando a ela a explicação sobre o porquê da inundação da comunidade horas depois. E não deixa de ser comovente a garota dizer “fui eu que causei o fim do mundo” instantes depois de ter desferido um leve soco em seu pai, no exato momento em que o relâmpago irrompia no céu. E é igualmente tocante a reflexão que a jovem faz enquanto observa seu pai lhe pôr num improvisado bote: “Para aqueles que não tem um pai para colocá-los num barco, o fim do mundo já chegou”.

     Hushpuppy, aliás, é uma personagem cujo arco dramático ganha força na medida em que o filme avança: Surgindo quieta, porém observadora, Hushpuppy tem na dinâmica com o pai uma curiosa relação pois, insistindo em ser tratada por ele como menino, Wink acredita sinceramente que isto ajudará a tornar a filha mais forte e determinada, insistindo inclusive para que a filha “não chore”. Assim, ao ir incorporando aos poucos os duros ensinamentos do pai, Hushpuppy vai precocemente amadurecendo e perdendo sua inocência, um processo que chega ao seu clímax na cena em que a menina encara e subjuga com o olhar os javalis pré-históricos.

     Quvenzhané Wallis, neste sentido, merece aplausos por sua composição, visto que sua personagem oscila entre a sensibilidade de uma garotinha vivaz e a aspereza de uma maturidade que vai se estabelecendo precocemente. E quando nos damos conta, ela se tornou uma cópia idêntica de seu pai. Contudo, são nos momentos de maior emoção que a jovem atriz se destaca, como na forte cena em que compartilha um copo de cachaça com seu pai (“isso é o máximo que eu posso te aconselhar”, diz ele) ou o tocante momento em que Hushpuppy e Wink encontram-se numa situação de irremediável sofrimento e o sujeito a obriga a “não chorar”, sendo que nem ele mesmo consegue conter as lágrimas nesse momento enquanto ela tenta engolir o choro.

     E há também o fabuloso momento entre a garota e uma cozinheira que, ao tomá-la nos braços, lhe possibilita um sutil momento de carinho, encerrando a cena numa comovente montagem onde, em tempos diferentes, vemos Hushpuppy bebê nos braços do pai enquanto no presente a jovem Hushpuppy se permite este pequeno abraço catártico com a desconhecida cozinheira. É interessante, contudo, como que através de pequenos detalhes visuais Zeitlin nos sugere a possibilidade daquela moça ser a mãe da protagonista sem a necessidade, contudo, de responder esta sugestão, dando complexidade à cena.

     Além disso tudo, Beasts of the Southern Wild ainda produz em segundo plano, um verdadeiro documentário etnográfico, já que o tratamento de Zeitlin e o diretor de fotografia Ben Richardson (através de sua câmera na mão) corroboram essa perspectiva, passando pelo design de produção cujo caos do cenário através de seus objetos entulhados e dos casebres precários, passando pelos figurinos maltrapilhos e pela maquiagem acertadamente suja, evoca eficazmente esta necessidade, nos permitindo mergulhar naquele universo, ajudados ainda pela comovente e apaixonante trilha sonora de Dan Hommer e do próprio Zeitlin.

     Neste sentido, mesmo sendo uma ficção este cenário transforma-se num personagem com arco dramático próprio. Assim, estabelecido o espaço ficcional e aceitando Bathstub como real, somos apresentados aos seus espaços e em seguida aos personagens; aí, reconhecendo seu cotidiano, identificamos suas condições socioeconômicas e a partir de certos diálogos (ou “relatos”), ficamos sabendo das principais reivindicações dos moradores (neste caso, a manutenção de seu modus vivendi). Neste ínterim, percebemos o que os mantém unidos naquele ambiente é uma frágil cultura sustentada por uma sólida solidariedade, sendo testada no momento que aquele espaço não mais existir.

     Assim, quando os sobreviventes daquela comunidade põem-se em êxodo, tendo a pequena Hushpuppy à frente (no magnífico e melancólico plano final), temos a certeza de que aquela comunidade irá perdurar e se estabelecer em outro lugar que os permita conviver. Dessa forma, Benh Zeitlin conseguiu construir, mesmo indiretamente, uma fabulosa ficção e um inquestionável documento etnográfico (ou representação etnográfica, como queiram) nos mostrando, a partir dos olhos de uma adorável e trágica garotinha, a dura realidade de indivíduos que parecem ter sido esquecidos por Deus ou pelo Governo.

 

 

 

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