MATAR OU MORRER

06/06/2014 22:05

Nota do Site: 5/ 5

 

Logo no início de Matar ou Morrer, obra-prima do cineasta Fred Zinnemann (dos igualmente inesquecíveis O Homem Que Não Vendeu Sua Alma A Um Passo da Eternidade), acompanhamos três sujeitos mal-encarados em direção à pequena estação da cidadezinha de Hadleyville e ficamos sabendo de imediato que ambos esperam por um quarto pistoleiro, o temível e imprevisível Frank Miller, um sujeito que já fora preso pelo delegado da cidade e agora quer vingança. Neste momento, num outro ponto de Hadleyville, o delegado em questão, Will Kane (Gary Cooper) acaba de casar com a bela Amy (Grace Kelly, em seu primeiro papel de destaque no cinema) no mesmo momento em que é informado sobre a pretensão dos quatro pistoleiros. Optando por ficar e enfrentar Frank e sua gangue, Will precisa lidar com duas situações: a primeira diz respeito à sua esposa, que opta por seguir viagem sem a presença do marido, e a segundo e mais difícil situação, diz respeito à própria cidade de Hadleyville: de uma hora pra outra, todos os assistentes do corajoso delegado debandam e rigorosamente todos naquela cidade parecem querer ver o delegado longe dali, temendo pelo pior. Assim, a coragem de Will em contraponto à covardia do restante dos moradores passará a ser desenvolvida com maestria pelo roteiro de Carl Foreman e pela excelente direção do ótimo Fred Zinnemann.

Estabelecendo um universo narrativo onde a cronologia dos fatos se passa em tempo real, Will Kane tem exatamente 80 minutos de espera até o confronto inevitável com Frank Miller. Assim, a habilidade de Zinnemann reside em aumentar a tensão do filme na medida em que o protagonista percorre a cidade em busca de ajuda e não encontra nenhuma. Aliás, é louvável por parte de Foreman e Zinnemann estabelecer que a covardia dos homens de Hadleyville se deva muito mais a razões pragmáticas de sobrevivência do que de caráter, muito embora Kane encontre, aqui e ali, sujeitos que se mostram desdenhosos quanto ao destino do delegado, e outros que o incentivam a fugir acreditando sinceramente que a ausência do sujeito seria o suficiente para se evitar o perigo que se avizinha.

Perigo este salientando pelos planos fixos da estação de tem e dos trilhos, respectivamente, que funcionam para nos inquietarmos sobre o que realmente acontecerá. É claro que podemos “intuir” perfeitamente que no “duelo” entre Miller e Kane vencerá o protagonista, mas a habilidade de Zinnemann reside em fazer com que experimentemos junto com o protagonista toda a inquietação e incerteza do momento, sendo tocantes, por exemplo, os momentos em que o delegado vagueia pelas ruas enquanto os habitantes cujo delegado pretende defender encontram-se intocados em suas casas, igreja e saloon, claramente desconfortáveis com a opção de não agirem, mas paralisados em decorrência do medo.

Além disso, num universo dominado por homens (e que remetem diretamente ao imaginário do western clássico), é louvável, por exemplo, o espaço que o longa disponibiliza à Katy Jurado, como a independente Helen Ramirez, e claro, à Grace Kelly, num arco dramático que oscila entre a indecisão e a coragem no momento crucial do filme, já no terceiro ato. Destaca-se também o personagem vivido com eficiência por Lloyd Bridges, como o assistente Harvey Pell, que se num primeiro momento apresenta-se mesquinho ao tentar barganhar com Kane uma possível ajuda, no outro se mostra até mesmo complexo ao tentar impedir que o delegado confronte Miller.

E por último, claro, temos a interpretação memorável de Gary Cooper que, não é à toa, foi premiado com o Oscar: sujeito decidido e com uma irretocável ética profissional, Cooper concebe Will Kane como um delegado amedrontado, mas ciente de sua responsabilidade. E por mais que ele nunca consiga traduzir em palavras o porquê dele simplesmente não ir embora dali com sua esposa antes que seja tarde demais (o que é louvável por parte do roteiro e que só serve para tornar o personagem mais complexo), Will Kane é consciente o suficiente para perceber o quão insignificante são seus esforços em tentar arregimentar um pequeno exército. E a expressão do ator, como se sugerisse um claro desespero acerca do destino que o espera, só serve para nos apiedarmos mais deste belíssimo protagonista.

Um protagonista que, aliás, serve ainda para refletir sobre os limites da honra e da ética policiais em lugares onde o banditismo parece ter mais “aceitabilidade” dos cidadãos, algo ilustrado, por exemplo, nas falas do recepcionista do hotel e, claro, na cena onde os freqüentadores do saloon recusam a oferta de Kane instantes depois de terem recebido a visita de um dos integrantes da gangue de Miller.

Irretocável do início ao fim, Matar ou Morrer conta ainda com um terceiro ato eficientíssimo que cumpre a promessa construída a partir da crescente tensão desenvolvida ao longo de 80 minutos do filme. E aqui, mais uma vez palmas para a habilidade de Zinnemann em explorar os mais diversos cenários no momento do duelo final, coroado ainda com um gesto final de Cooper repleto de simbolismo. Aliás, um final perfeito para um filme que soube como ninguém explorar a virtude ética de um cidadão em contraponto ao pragmatismo vicioso do restante de uma cidade que só soube se manifestar quando nada mais precisava ser feito.    

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