MELANCOLIA

25/05/2014 19:22

 

 Nota do Site: 5/ 5


     A HISTÓRIA

 


     Dogville, Dançando no Escuro e O Anticristo. O que estes longas têm em comum? A resposta: são algumas das principais obras-primas do cineasta dinamarquês Lars Von Trier. Dono de uma filmografia riquíssima, suas narrativas invariavelmente refletem sua visão particularmente pessimista sobre a humanidade, trazendo protagonistas femininas fortes e decididas cujos conflitos particulares refletem este embate do indivíduo frente às pressões e idiossincrasias da coletividade que assumem, nas mãos de Von Trier, o papel de antagonista, uma vez que são estas coletividades que Trier se esforça em observar e criticar, no final das contas. E se, em seus filmes anteriores, Nicole Kidman, Björk e Charlotte Gainsbourg (algumas de suas principais protagonistas) assumiam, de forma extremada, personagens que pareciam absorver todas as dores e contradições da sociedade ao qual pertenciam, neste seu novo projeto, Melancolia, sua protagonista atravessa todo o longa com um sentimento de desapego que ganhará significado ao constatar que, no final das contas, o fim da humanidade está próximo.

     Dividido em duas partes, Melancolia tem início com uma seqüência num prelúdio magnífico em slow motion, onde vemos um close up do rosto de Justine (Kirsten Dunst), enquanto esta nos encara com um olhar desconfortante enquanto pássaros caem do céu, no fundo do quadro. Enquanto isso, ainda em slow, vê-se outros personagens e cenários, que parecem se desintegrar, por causa da aproximação de um planeta que se choca com a Terra, destruindo-a. Após essa introdução, somos apresentados à protagonista Justine (Kirsten Dunst) e Michael (Alexander Skarsgård), que, recém-casados, se dirigem para a mansão de John (Kiefer Sutherland) e Claire (Charlotte Gainsbourg), respectivamente, cunhado e irmã de Justine, para a festa de casamento do casal. Na mansão, enquanto interage com o restante dos parentes e convidados, Justine, sob o olhar controlador da irmã e do cunhado, começa a se questionar em relação às escolhas que fez, iniciando um processo de desapego por tudo aquilo e que culminará num desfecho totalmente diferente daquilo que todos esperavam.

     Na segunda parte, a atenção se voltará para Claire que, recebendo Justine que se encontra em depressão desde o dia da festa, terá que lidar ainda com a relutância do marido em receber a cunhada, além de se esforçar para que seu filho, o jovem Leo, não sofra com a saúde precária da tia. Enquanto isso, Claire ainda teme a passagem do planeta Melancolia, mesmo com a insistência de John em afirmar que uma colisão com aquele planeta é cientificamente impossível.


     SOBRE JUSTINE


     Melancolia é um filme que opta por mostrar as conseqüências inevitáveis do fim do mundo no íntimo dos personagens principais, sobretudo Claire, John e Justine que, curiosamente, começa a dar os primeiros sinais dedepressão ao demonstrar certa melancolia na medida em que o planeta Melancolia se aproxima da Terra, intensificando-se no decorrer de sua festa de casamento e chegando a seu ápice a partir do momento em que esta se muda para a mansão da irmã, quando a colisão com o Melancolia se torna uma possibilidade que o cético e racional John, por exemplo, não compartilha.

     Mas falemos de Justine. Após o prelúdio vemos, ela e seu marido Michael, numa limusine, parados no meio de uma estrada de terra, em direção à mansão. A imagem da limusine, em plongé, tentando seguir em frente, enquanto a personagem encara aquilo tudo com diversão, dão ao espectador um indício de que algo está errado naquela felicidade aparente.

     Felicidade esta que começa a ser questionada muito sutilmente a partir do momento em que Justine passa a interagir com os convidados de sua festa de casamento que, de uma forma irritantemente insistente, passam a perguntar se ela “está feliz”. E é quando a personagem, no decorrer da festa, começa a evadir-se pela mansão ou mesmo pelo vasto campo de golfe daquela propriedade, é que percebemos a tentativa dela em escapar daquilo tudo, buscando desculpas variadas para ficar só. E notem como os gestos preguiçosos da personagem, sejam ao tirar a roupa ou ao deitar-se, demonstram falta de entusiasmo com aquilo tudo, o que evidencia o cuidado de Dunst para os detalhes na composição de sua personagem.

     E é essa falta de entusiasmo de Justine que sugere ao espectador um gradual vazio existencial, uma melancolia que vai se desenvolvendo num momento em que, a rigor, deveria ser de absoluta celebração. E é sintomático, por exemplo, que a personagem fique mais à vontade perto do sobrinho Leo, já que a relação dela com a criança se baseia numa afetividade totalmente disprovida de compromissos. Diferente do que ocorre com os outros convidados. Em dúvida sobre seu casamento, Justine parece estar sendo observada e julgada por todos, desde sua irmã e o cunhado, que fazem questão de lembrá-la do quanto gastaram na festa, passando pela mãe pessimista (Charlotte Rampling), que deixa claro a todos sua visão cínica sobre o casamento, e pelo pai permissivo (John Hurt), que se esforça apenas para alfinetar a ex-mulher e esbanjar seu hedonismo.

     E não posso deixar de citar o patrão de Justine e os outros empregados da festa que, cada um à seu modo, estão apenas interessados em evitar que a moça não estrague seus trabalhos/ afazeres. Estes personagens secundários, aliás, estão no filme apenas para representar a visão pessimista do diretor em relação à coletividade, tanto que, com a exceção de Justine, John, Claire e Leo, todos os outros saem de cena após cumprirem seus propósitos narrativos, que servem apenas para ilustrar o arco dramático da protagonista.

     Nesta 1ª parte do filme, o foco em Justine vai mostrando como sua melancolia cria as condições para sua depressão, na 2ª parte. E essa depressão só é possível a partir do momento que Justine, no decorrer da festa, vai rompendo com quaisquer laços de afetividade que tenha, seja familiar (os pais dela e Michael) ou de trabalho (a subtrama com seu chefe e o estagiário). Livre de qualquer obrigação com alguém, não há mais nada que impeça Justine de se importar com quem quer que seja. E aqui, mais um parêntese para a interpretação de Dunst que, num exemplo de entrega total à personagem, surge fragilizada e dependente, sem vontade inclusive, para tomar banho. Esta seqüência no banheiro, aliás, faz uma rima temática com outra cena, onde Justine está deitada na relva, nua e sob a luz azul do Melancolia. Em certo momento do filme, Justine diz à mãe: “Quando tento caminhar, sinto um fio de lã, cinza e grosso, enrolado às minhas pernas”, uma metáfora que reflete de maneira poderosa o sentimento melancólico produzido pela personagem. E não é à toa que essa metáfora é representada também no prelúdio, quando vemos galhos enrolados às pernas da personagem.

     Curiosamente, seu ânimo renova-se ao constatar a aproximação do planeta Melancolia e seu possível impacto com a Terra, já que, encarando o fim do mundo como inevitável e ciente de que não há nada na Terra pelo qual lutar ou se importar, assume uma postura passiva e perturbadoramente objetiva. E esta postura reflete nada menos do que a visão de mundo de Von Trier, falando por aquela fascinante personagem.


SOBRE CLAIRE


     Claire é uma daquelas primogênitas que assume sem reservas a função de cuidar dos irmãos mais novos, ficando à vontade como referencia emocional e ética, ao mesmo tempo em que usa, mesmo que conscientemente, sua influencia junto à estes, para que eles façam aquilo que ela própria julga ser o certo. E ela já surge em cena expondo sua natureza metódica e auto-centrada, demonstrando preocupação, não com o atraso da irmã e do marido, mas com o cumprimento de seu rigoroso protocolo cerimonial que, a rigor, representa apenas burocracia.

     Compondo uma personagem totalmente diferente daquela vista em O Anticristo, Charlotte Gainsbourg brilha toda vez que está em cena e, mesmo assumindo uma postura mais controladora em relação à irmã, é nítido seu amor por Justine, algo que fica claro na cena em que, ao informar a irmã dos custos da festa, se preocupa em saber dela se “ela será feliz”, ou na cena em que Claire a tenta fazer sair da cama, quando Justine já se encontra numa irremediável depressão. Além disso, é fascinante perceber esta complexidade na relação entre as personagens apenas observando Claire dizer a frase “ás vezes, eu odeio tanto você”, em contextos diametralmente opostos, sendo que, num primeiro momento, Claire está no controle da situação, ao passo que, num segundo momento, é Justine quem está numa situação dominante.

     E se sua dinâmica com Kirsten Dunst é fascinante por si só, a relação estabelecida com Kiefer Sutherland funciona por mostrar, para o espectador, como aquela relação, a seu próprio modo, tem uma dinâmica invejável, uma vez que, mesmo John e Claire vez ou outra briguem por causa de seus parentes (sobretudo quando Justine instala-se na mansão deles), é inegável o amor que ambos sentem um pelo outro. Mas como seres racionais que são estes dois personagens nunca se entregam a arroubos românticos (o que, definitivamente, não funcionaria aqui). E é interessante como o casal se relaciona com o filho que também tem uma personalidade moldada pela mesma postura dos pais.

     Mas é a proximidade do Melancolia e os rumores lidos na internet, que fazem Claire sofrer uma importante mudança de comportamento, ao constatar que a possibilidade de colisão da Terra com o Melancolia, mesmo seu marido lhe garantindo o contrário. E neste momento, sua postura confiante dá lugar a uma mulher insegura e paranóica, ao passo que sua irmã se mostra confiante e no controle da situação (como fora dito, parágrafos antes), enquanto seu marido, ao perceber que sua crença na ciência fora contestado, encontra uma solução irracional e estúpida.

     É essa mudança de comportamento entre as irmãs que torna o terceiro ato do filme num espetáculo à parte. É neste momento que a câmera na mão do diretor de fotografia Manuel Alberto Claro se justifica, pois as ações das personagens, sobretudo Claire, tornam-se urgentes e também ingênuas. É por isso que a proposta de Claire para Justine soa tão boba quando contestada, já que, a rigor, não importa o que ambas façam ou deixem de fazer. A inevitabilidade da colisão selou seus destinos pra sempre.


     SOBRE O MELANCOLIA


     Lars Von Trier trabalha de forma curiosa o termo “Melancolia”. Para Biderman & Genestreti (2011), “seu novo filme é um retrato desse estado de ânimo em todos os aspectos: dos psiquiátricos (sintomas da depressão) aos filosóficos (a tristeza como consciência da solidão humana no universo)”. No capitulo referente à Justine, ele retrata o estado emocional da personagem, que, tendo que lidar com seus conflitos psicológicos, atravessa toda essa parte da história em dúvida sobre as escolhas que fizera até ali. Em outras palavras, uma espécie de apatia decorrente da perda de algo que não necessariamente possa ser compreendida, pois não se identifica a causa, mas que precisa ser superada. A decisão tomada por ela, contudo é se afastar de tudo aquilo, embarcando num processo irremediável de depressão que só terá uma solução no 3º ato. Na 2ª parte da história, quando Claire passa a ser o foco, o termo Melancolia dirá respeito ao planeta que está se aproximando da Terra, e que acabará sendo o centro das atenções daquela família. Nesta 2ª parte, dois aspectos chamam atenção nessa abordagem de Von Trier, e que são evidentes devido ao próprio teor da narrativa: a ausência de uma abordagem religiosa do fim do mundo e, sobretudo, uma suposta crítica à ciência, principalmente a partir de John e Claire.

     Em Melancolia, pode-se afirmar que o fim do mundo, longe do tom messiânico e paranóico que uma abordagem religiosa poderia pressupor, tem na crença à ciência e à razão seu principal foco de atenção, uma vez que a constatação de sua falibilidade chama a atenção e, neste sentido, é mais do que normal que certos personagens ajam com total resignação, quando a ciência não mais pode dar conta do que está acontecendo.

     Na 1ª parte, os convidados da festa de Justine transitam pelos cenários esbanjando cinismo e ostentação; não temos nenhum indicio de que algo irá acontecer. As pessoas levam suas vidas como sempre levaram. São materialistas, e sua noção de felicidade e fé está em torno deste estilo de vida. Entre aqueles que esbanjam com orgulho seu status social, há aqueles que começam a dar indícios de que começaram a perder a fé nas coisas, primeiro com a mãe de Claire e Justine, ao se posicionar contrária à idéia de felicidade a partir do casamento e, depois, com Justine, que passa a questiona sua própria materialidade ao se perceber infeliz com as escolhas que está fazendo. Em contrapartida, temos Claire, que se sente no controle ao abraçar um racionalismo compartilhado com o marido, John, que por sua vez, é a razão em pessoa, sempre preocupado com ordem e disciplina, e a insistência dele em repetir a palavra “inacreditável” sempre que se depara com uma situação ilógica é o reflexo desta personalidade racional.

     E é justamente essa personalidade racional de John que se converte claramente numa tentativa do diretor em criticar ou, no mínimo, alfinetar a ciência. Durante toda a 2ª parte (e também o 3º ato), John está preocupado em observar o fenômeno que trará à Terra o planeta Melancolia; como todo bom cientista, John sabe das probabilidades positivas e negativas do evento; ele não é nenhum deslumbrado. Como um homem de razão, compreende perfeitamente que os rumores de que o tal planeta possa se chocar com a Terra certamente traria paranóia e loucura à coletividade e, neste aspecto, passa a controlar, no âmbito familiar, as informações a respeito desse evento. No processo, crê nas afirmações dos especialistas de que o Melancolia não se chocará com a Terra e, por causa disso, precisa eliminar qualquer temor que sua esposa tenha sobre isso. E é aí que John tem sua fé contestada: no exato momento em que ele percebe que as previsões científicas falharam em seus cálculos e, vendo o fim inevitável, toma uma atitude irracional e ilógica: se mata. E escolhe um lugar afastado de todos para executar tal ato: um estábulo.

     Essa atitude final de John desestrutura Claire que, racional como ele, já vinha perdendo sua fé nas coisas há certo tempo, a partir do momento em que começou a duvidar da “infalibilidade” da ciência. Paralelamente, Justine, que já estava mergulhada no caos da depressão, percebe-se renovada, ao constatar que o fim do mundo a libertou de qualquer sofrimento, já que, uma vez chegado o fim, não precisaria mais se lamentar. E aí, mergulhada em cinismo, assume uma postura dominante frente à irmã, que à essa altura, já estava terrivelmente desesperada. E, num momento que, pra mim, tornou-se inesquecível, justamente por sintetizar de forma perfeita a visão pessimista de Von Trier a respeito da humanidade, e que pode servir, a propósito, como crítica à religião (dependendo da análise), o diretor traz Justine confrontando Claire sobre a idéia desta última de esperarem pelo fim do mundo juntas, com uma taça de champagne nas mãos, como se celebrassem a vida: “E porque não no banheiro? Sejamos sinceras, o que há para comemorar? O que há na Terra que valha a pena ser preservado?”. No final das contas, o cinismo de Justine a fez desapegar-se da humanidade, ao passo que o desespero de Claire a fazia se importar com aquilo tudo, mesmo que, no fundo, soasse ingênua ou ilógica já que, a rigor, tudo acabaria, de uma forma ou de outra.

     E aí, mais uma vez, Von Trier escolhe de forma genial o quadro perfeito para encerrar sua história, ao trazer Justine, Claire e o pequeno Leo juntos, embaixo de uma fragilíssima cabana feita de alguns galhos, sugerindo-nos, afinal de contas que, não importa o jeito ou o cenário que aqueles personagens escolheriam para morrer, tudo acabaria num piscar de olhos, em pó e cinza, sem dor ou sofrimento, sem qualquer lição de moral edificante, pois, se existe alguma moral nessa história toda, poderia ser resumida numa única pergunta: “Quando até mesmo a ciência falha em prover a verdade, então, o que falta?”.

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