NASCIDO PARA MATAR

06/10/2014 03:26

 

Cotação: 5/ 5

 

Nascido Para Matar é a visão ácida de Stanley Kubrick sobre a Guerra do Vietnã e, de quebra, é “a” visão do diretor sobre o conceito da guerra e os efeitos nocivos que esta pode ter nos “corações e mentes” de jovens soldados que, idealistas a princípio, acabam tendo que encarar uma realidade tenebrosa onde cada segundo pode ser decisivo e que mesmo saindo salvo do combate, tem que lidar com as traumáticas lembranças das experiências que vivenciaram, algo salientado particularmente pela mise-en-scène milimetricamente calculada do cineasta, onde a câmera se movimenta no mesmo ritmo pausado e calculado com que os soldados vão explorando os novos e hostis ambientes, tornando o espectador próximo dos seus personagens ao dotá-los de um ponto de vista que invariavelmente os coloca como testemunha inequívoca das barbáries que vão surgindo em tela.

Optando corajosamente por prolongar sua primeira parte e dividir seu filme em dois momentos, Stanley Kubrick (e seus co-roteiristas Michael Herr e Gustav Hasford) iniciam sua narrativa numa cena particularmente inofensiva, mas profundamente sugestiva: jovens recrutas cortando seus cabelos antes de iniciarem seu treinamento militar, onde seus rostos animados mal escondem suas expectativas para o início de seu treinamento. É então que conhecem o Sargento Hartman (R. Lee Ermey, que na época trabalhava como consultor militar antes de ser contratado por Kubrick), cujo método de trabalho mostra-se particularmente intenso e cruel, que tinha por intuito preparar jovens inexperientes em máquinas irracionais de guerra.

É neste contexto que reside a genialidade de Kubrick: optando por prolongar sua primeira parte, o diretor usa desta premissa do treinamento militar para desenvolver sua crítica sobre a guerra, mostrando o passo-a-passo de como jovens idealistas a princípio tornam-se sujeitos desumanizados e psicologicamente afetados pela lógica militar antes mesmo de estarem em combate, e faz isso com profunda eficácia ao concentrar-se nessa primeira parte na relação entre o sargento Hartman e o débil soldado Pyle (Vincent D’Onofrio), cujo cotidiano de humilhações e privações o tornam num sujeito estável e pronto para o combate. Entretanto, depois de centrar foco nestes dois personagens complexos e fascinantes, Kubrick passa o bastão ao verdadeiro protagonista do filme, o soldado Jokerman (Matthew Modine) que, mesmo sendo a rigor menos interessante que Pyle, por exemplo (muito por causa da inexpressividade do ator), ao menos não prejudica o filme, convertendo-se numa espécie de bússola para que o espectador acompanhe as ações ocorridas na segunda parte do filme.

Uma segunda parte que, se não apresenta a originalidade e a contundência do primeiro, pelo menos não deixa de se mostrar menos interessante pois o diretor faz questão de continuar desenvolvendo sua crítica sobre o absurdo da guerra, trazendo à tona uma pergunta que parece sempre dominar as conversas dos soldados: porque os vietnamitas não se mostram agradecidos pela “ajuda” que os americanos estão lhe dando? Uma pergunta que, vista a partir da opinião de cada soldado, mostra-se complexa simplesmente porque os próprios soldados parecem não acreditar nas “boas intenções” do Tio Sam (vide o discurso do personagem de Adam Baldwin, Animal Mother).

E é nesta parte do filme que a câmera de Kubrick mostra-se absolutamente inventiva: se nos dias de hoje um filme de guerra ou de ação optaria por uma montagem desenfreada e por cortes rápidos, Stanley Kubrick adota em seu filme de guerra planos mais longos e travellings que ajudam a explorar os cenários ao lado de seus personagens. Além disso, em momentos cruciais mais “gráficos”, o diretor utiliza-se de uma câmera lenta a fim de salientar o drama vivido pelos combatentes em meio ao fogo cruzado e, neste sentido, a sequência em que o pelotão fica à mercê de um franco-atirador merece aplausos pela sua execução. E o plano final onde os sobreviventes caminham em meio à uma cidade em chamas é simbólico por sugerir que àqueles sujeitos finalmente estão caminhando para “fora” do inferno mas, a julgar pelo voice over do protagonista, a paz finalmente alcançada pode necessariamente não ser plenamente realizada, pois dificilmente indivíduos colocados naquela situação voltam pra casa sem nenhum trauma.

E fazer uma leitura desse tipo num filme cuja tese que advoga se desenvolve muito mais nas entrelinhas do que a partir de uma trama expositiva, é mérito de um diretor diferenciado como Stanley Kubrick, que enxergava nas grandes instituições sociais o principal foco de crítica e discussão de seus melhores projetos e que, em Nascido Para Matar, consegue equilibrar-se perfeitamente entre a discussão teórica do conceito da guerra e a necessidade narrativa de se mostrar ações que ilustrassem a guerra buscando apelar para o melodrama. No final das contas, venceu a racionalidade impecável deste grande cineasta.

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