O AREAL

25/05/2014 19:47

 

Nota do Site: 5/ 5

 

     Dos vários filmes exibidos na IV Mostra Amazônica do Filme Etnográfico de 2009, destacou-se dos demais uma produção chileno-hispânica que, de forma surpreendente, trouxe à tela a história de uma comunidade quilombola do interior do Pará chamada Guajará onde, em seu cotidiano, estabelecem relações simbólicas seculares junto à natureza, destacando-se dentre estes, as representações míticas que povoam seu imaginário em relação ao lugar denominado Areal que, cercado de histórias a respeito de visagens e encantados, servem como elemento identitário daqueles moradores, ao mesmo tempo em que estabelecem relações coercitivas que mediam a visão de mundo destes em relação à natureza. Ajudado por pesquisadores que durante anos pesquisam naquela área, o documentarista Sebástian Sepúlveda realizou uma obra que, concisa em sua etnografia, também é contundente em seus aspectos políticos e econômicos, por mostrar a partir do terceiro ato, as conseqüências desastrosas de um empreendimento que afetaria substancialmente aquela realidade.

     Assim, O Areal já inicia de forma brilhante: enquadrando o respectivo espaço de investigação (um terreno arenoso com cerca de 100 hectares), ouvimos um voice over de uma senhora falando a respeito de uma das lendas do lugar. Em seguida, somos apresentados a esta interlocutora em um quintal, sentada num tronco velho enquanto esta, diligentemente, inquire outros moradores sobre os mais diversos assuntos, perguntando sobre tudo e todos. Este pequeno prelúdio já estabelece, de forma econômica e eficiente, o foco da narrativa que se desdobrará a seguir bem como o seu cenário. À esta senhora, somar-se-ão outros interlocutores com outras narrativas que giram em torno deste mesmo tema.

     Neste sentido, é interessante percebermos a forma como são mostradas as histórias vistas no documentário. Sempre perguntados a respeito da existência ou não dos encantados do areal, os entrevistados invariavelmente corroboram-no, justificando, às suas próprias maneiras, o porquê das pessoas não virem com mais frequências as tais visagens. Existe uma passagem no filme que resume perfeitamente esta questão: ao responder afirmativamente sobre a existência das visagens, certo morador afirma que as pessoas podem não estar mais os vendo por causa do desmatamento, pois, de acordo com o entendimento popular, os fantasmas são que nem os animais, uma vez destruídas as matas e os lugares tidos como sagrados, os espíritos somem em busca de lugares mais escuros para habitar. Esta é a versão popular frente a um novo contexto que se insurge naquele cotidiano.

     Intercalando estes momentos com outros mais humorados, a câmera de Sepúlveda encontra tempo também para registrar o cotidiano daquelas pessoas em seus momentos de lazer e convivência. Auxiliado também por um eficiente design de som, que valoriza as imagens vistas justamente por acentuar o silêncio das locações escolhidas, criando quadros contemplativos que nos permitem pensar a respeito daquilo que vemos e ouvimos sem nenhuma interferência técnica, esta eficiente mise-en-scene ajuda a estabelecer ainda um clima bastante propício para a discussão de um tema que será enfatizado somente no ato final, quando tudo o que tivermos visto até aquele momento servirá de contraste para a mudança de enfoque a ser empregado e servirá de subsídio para tirarmos nossas próprias conclusões a respeito.
     
     Antes, porém, voltemos ao conceito principal. Enquanto registra o cotidiano daqueles comunitários e coleta suas narrativas míticas sobre o “areal encantado”, Sepúlveda utiliza-se da eficiente montagem para estabelecer as relações entre os entrevistados sem, contudo, sentir a necessidade de identificá-los por nome. Pode parecer contraditório, mas o fato de não sabermos os nomes dos entrevistados não anula em nada nosso entendimento. Pelo contrário: o interesse primordial deste projeto reside justamente no espaço de investigação da pesquisa e como este interliga as relações sociais dos indivíduos ali inseridos. Assim, conseguimos identificar os atores sociais e sua genealogia na medida em que a narrativa se desenrola em tela.

     Outro aspecto importante deste projeto está na incrível concisão entre as escolhas do cineasta e as informações auxiliadas claramente pelos pesquisadores, convertendo o filme também num importante diálogo entre documentário e filme etnográfico. Nenhuma informação vista na tela é dada em demasia ou repetidamente; cada sequência cumpre a importante função de desenvolver o tema principal a partir de variadas versões e linguagens: há personagens que as dizem com mais solenidade, outras em forma de causo, proferindo suas histórias de forma jocosa, etc.

     Toda esta atmosfera desenvolvida serve como elo para a discussão de outro tema tão importante quanto, naquele contexto: os impactos ambientais, econômicos, políticos e culturais de projetos governamentais sem qualquer responsabilidade ambiental, que, sob a fachada de “progresso”, deturpam e degrada áreas como a do Areal de Guajará, sem se importar com o valor simbólico e cultural daquele espaço para aquelas pessoas. Dito assim seria de se esperar que este documentário iniciasse sua abordagem assumindo de imediato o caráter de filme-denúncia, sem se ater a minúcias antropológicas que só atrapalhariam o entendimento, caso o filme fosse somente mais um esforço burocrático e “denuncista”.

     Porém, o que vemos em O Areal é uma preocupação genuína com os próprios comunitários. Dessa forma, Sepúlveda demonstra acima de tudo uma preocupação especial com a coerência lógica da sua historia e, com isso, introduz a questão polêmica da degradação ambiental numa cena onde, enquadrando uma TV onde uma notícia está sendo veiculada, ficamos sabendo que uma ponte está sendo construída no trecho denominado de Alça Viária – distante há dez quilômetros de Guajará – um momento tão sutil que de inicio encaramo-lo como um simples insert de imagens. Em seguida, durante todo o segundo terço do filme, somos apresentados à imagens de construção e posterior funcionamento da ponte, preparando-nos para o que virá a seguir.

     E chegamos, enfim, ao impactante ato final. Após vermos a ponte em funcionamento, vemos em seguida alguns moradores falando a respeito da proposta recebida para estes cederem a areia do areal, a fim de utilizá-la na construção civil, sob o pretexto de retorno financeiro à comunidade, bastante empobrecida economicamente. Em seguida, uma legenda nos informa: “três anos depois”, cortando em seguida para o areal, já degradado pelo trabalho das caçambas e empoçado pela água das nascentes ao redor. O impacto visual é nítido, pois a ação dos especuladores destrói tudo aquilo que antes passamos a admirar.

     É então que nos damos conta da lógica narrativa de Sebástian Sepúlveda. Ao compartilharmos todas aquelas narrativas, causos e o modo de vida daquelas pessoas, passamos a ser íntimos o suficiente para compreender o que toda aquela degradação mostrada nos vinte minutos finais representa no cotidiano destes comunitários. Além disso, passamos a nos importar sensivelmente com o que virá a seguir, mesmo sabendo que, embora o espaço mítico do areal esteja descaracterizado, ainda assim os comunitários encontram meios de manterem vivas suas crenças sobre o lugar.

     Se hoje em dia já não se podem “ver” ou ouvir lendas sobre lobisomens, Matinta Pereira ou pássaros encantados (a própria Igreja Evangélica do lugar busca desacreditar estas histórias), a “Mãe do Areal” resiste e, de acordo com a crença deles, ainda pune aqueles que ousarem “mexer” com seu território sagrado. Coincidência ou não, alguns tratoristas apareceram no filme dizendo ter visto uma luz que aparecia e desaparecia, bem no meio da cratera formada no centro do areal. Verdade ou mentira, o certo é que estas histórias ainda vão permear toda a racionalidade daquela gente, e esta é a grande vitória de Sepúlveda e sua equipe, mostrarem uma realidade sem sentir uma necessidade arbitrária de julgá-los, mas só compreendê-los.

     Fiquemos, então, com a frase de determinada personagem, que diz: “Eles [Igreja] dizem que não é pra gente acreditar nessas coisas. Mas que existem, existem”.

 

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