O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD

24/05/2014 18:56

 

   Nota do Site: 5/ 5


     De certa forma, O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford é um filme sobre a necessidade que temos de ser reconhecidos pelas habilidades que julgamos ter mas que os outros não percebem e, sobretudo, não privilegiam. Aqui, temos dois lados da mesma moeda: de um lado, Jesse James (Brad Pitt), o mitológico bandido celebrizado pelo público e mídia e do outro, Robert Ford (Casey Affleck), o desconhecido sem importância que, mesmo achando-se relevante, é constantemente ridicularizado por seus iguais e menosprezado pelos outros. Neste sentido, o principal tema deste filme é algo que se desenvolve lentamente, à medida que o filme avança e vai desenvolvendo a personalidade destes dois indivíduos complexos e fascinantes.

     Escrito e dirigido pelo então novato Andrew Dominik, o filme tem início num voice over elegante que sintetiza a vida de Jesse James enquanto este se prepara para mais um assalto de trem junto ao seu bando, constituído por Frank James (Sam Shepard), seu primo Wood Wite (Jeremy Renner), Dick Liddil (John Schneider), Ed Miller (Garret Dillahunt) e os irmãos Charley (Sam Rockwell) e Robert Ford. Depois disso, enquanto cada um toma seu rumo após o assalto, passamos a acompanhar Robert aproximando-se de Jesse, seu ídolo declarado que, por sua vez, mantém-se reticente e em constante avaliação. Assim, é mais do que justificado as provocações que Jesse faz ao pretenso pupilo, a fim de avaliar o caráter de Ford, um sujeito escorregadio cujas falas e sorrisos inseguros esconde sua crescente necessidade de ter o mesmo prestígio de Jesse.

     Fotografado soberbamente pelo mestre Roger Deakins, que além de se utilizar de cores frias para salientar a melancolia predominante da narrativa, também distorce as imagens nos cantos dos quadros, aumentando a atenção para o que ocorre no centro da imagem, evocando a ideia de cerco ou aprisionamento, algo salientado também na recorrente imagem de James visto de dentro de casa através do vidro opaco de sua janela. Sem esquecermos também dos zoons em Ford, que ao encolhê-lo no quadro, registram todo o desconforto e a insegurança do sujeito. Além disso, a melancólica e bela trilha concebida por Nick Cave e Warren Ellis é eficiente ao ajudar nesta imersão proposta pelo filme.

     Casey Affleck, em seu primeiro papel importante no cinema, é um personagem que esgueira-se pelos corredores, janelas e portas. Não é um sujeito que se impõe ao adentrar um recinto; sua personalidade não se destaca pela conversa fácil nem pelos modos educados. Ao invés disso, Ford é um cara que se insinua ao tentar agradar aqueles que estão em posição dominante a ele, como na cena onde, ao pedir à Frank James que o inclua no assalto ao trem, imediatamente coloca-se de cócoras, numa posição subserviente em relação ao interlocutor que mal lhe dá atenção. Além disso, Ford compartilha conosco daquela vergonha tão comum aos jovens, que se constrangem ao se verem zombados diante daqueles que admiramos, criando assim um incrível laço de cumplicidade com o espectador.

     Jesse James, por outro lado, é concebido por Pitt como um sujeito narcisista, arrogante, misterioso, zombeteiro e impiedoso. Ciente de sua mistificação é um sujeito em constante alerta beirando a paranóia e a neurose. Suas falas são milimetricamente calculadas para deixar o interlocutor sempre desconfortável e a ponto de revelar-lhe os mais comprometedores segredos, além de usar as pausas e o silêncio calculado para criar tensão em seus ouvintes. Além disso, o Jesse James de Pitt é tão eficaz que sua presença em cena incomoda até a nós, espectadores. Além disso, ao posicionar-se sempre atrás de seus alvos antes de matá-las, cria um eficiente suspense que revela muito da personalidade perigosa do sujeito.

     Assumindo um design de produção que nos remete imaginariamente ao universo western, o filme usa isto como cenário para um drama intimista que se propõe a discutir o conceito por trás do próprio título sugerido. Assim, mais do que inveja por James, Ford ressentia-se pela posição que o ídolo ocupava. E é ao ser ridicularizado pelo ídolo em determinada cena da trama que o sentimento de idolatria dá lugar visivelmente à uma necessidade drástica de “anulação” do outro, seja pela prisão ou pelo assassinato.

     Desta forma, não é difícil comparar Ford à Raskolnikov, de Crime e Castigo (mas sem a catarse final deste último), pois, justificando o assassinato como forma de mostrar seu valor, Robert Ford, de forma ingênua, acaba se enredando num destino de condenação e esquecimento que tanto temia, já que sua ingenuidade e impulsividade juvenis, não conseguindo a força mítica de seu ídolo, não previu que para cada ícone morto existem outros querendo vingar sua morte. Assim, Robert Ford acabou se tornando, ele próprio, a catarse coletiva de seu tempo, sob as mãos de Edmund O'Nell. E é por isso que os vinte minutos finais são tão significativos, tristes e tragicamente irônicos, pois foram aí que Robert Ford percebera seu terrível equívoco.

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