O ESPIÃO QUE SABIA DEMAIS

24/05/2014 21:13

 

 Nota do Site: 4/ 5


   O Espião que Sabia Demais é um thriller de espionagem cujos personagens constantemente locomovem-se ou são enquadrados pelos cantos do quadro, esgueirando-se até o momento de surgirem, dominantes, no centro da imagem. Nesse aspecto, é comum estes indivíduos encontrarem-se parcialmente encobertos por sombras e fotografados em cores frias que justificam sua ambigüidade, numa narrativa onde o imprevisível é a única certeza que rege aquele universo.

     Baseado no Best Seller de John Le Carré e adaptado por este e Peter Straughan, o filme, ambientado em plena Guerra Fria, conta a história do agente do Serviço Secreto britânico George Smiley que, após uma missão mal-sucedida de um agente vinculado ao seu grupo – denominado Circus – é encarregado de descobrir quem da inteligência britânica é um espião duplo a serviço da espionagem soviética. Contudo, como todos ali são teoricamente suspeitos, os esforços de Smiley deverão ser minuciosamente calculados, para que este seja bem-sucedido em sua investigação.

     Como é de se esperar, o filme inicia sua narrativa com um prólogo cujo objetivo é jogar o público direto na ação. Porém, ao invés de adotar uma ação desenfreada auxiliada por uma montagem frenética ao estilo Trilogia Bourne, o filme de Tomas Alfredson (do ótimo Deixe Ela Entrar) nos mostra que, para além de tiroteios e confrontos físicos, este é um filme de idéias e estratégias meticulosamente pensadas e executadas. Assim, quando determinado personagem diz a outro: “Esse é o seu legado, não deixe isso ser manchado”, compreendemos perfeitamente o que aquilo representa. No entanto, mais adiante quando outro personagem diz: “Afinal de contas, os dois lados jogam sujos”, percebemos o quão complexo podem ser as motivações daqueles indivíduos e quais implicações políticas podem significar seus discursos.

     Neste sentido, é fascinante percebermos a composição de Gary Oldman como George Smiley, já que durante boa parte do filme o personagem sequer abre a boca, optando apenas em observar seus suspeitos e refletir em silêncio sobre as evidencias levantadas. Aliás, até mesmo a apresentação de Oldman é retardada ao máximo e, quando acontece, mal aparece, de tão espremido que está no canto do quadro (e quando ele fala pela primeira vez, soa furtivo e trivial). Notem, além disso, os esforços dos roteiristas em manter a atenção do espectador apenas no lado profissional de Smiley, o que explica de nunca vermos o rosto da ex-mulher do veterano agente.

     Adotando uma série de flashbacks a fim de ajudar a contar sua história, o roteiro usa, além disso, uma série de simbolismos que ajudam a explicar/ sugerir o grau de dificuldade da investigação de Smiley, como o quadro minimalista que o agente observa no início do longa; a mosca, presa no carro do agente, tentando se libertar e, o mais óbvio dos simbolismos, as diversas linhas de trem, que bifurcam-se num emaranhado de possibilidades de caminhos a seguir.

     Porém, se o filme merece aplausos pela abordagem mais cadenciada, é sua montagem que tropeça em alguns momentos por não conseguir estabelecer com fluidez as passagens entre presente e passado, soando confuso às vezes. Além disso, a subtrama envolvendo o garotinho e seu “pseudo-professor” não levam a lugar nenhum, bem como os esforços dos roteiristas em tentarem – por duas vezes! – emplacar “draminhas” amorosos que, no final das contas, nunca encontram terreno fértil na trama. Outro tropeço, mais grave, diz respeito à revelação da identidade do agente traidor, que frustra-nos justamente por permitir ao espectador adivinhá-lo antes mesmo do momento adequado, o que prejudica a nossa descoberta.

     Mesmo com esses tropeços, O Espião que Sabia Demais é bom o suficiente para que nos importemos com seu protagonista. Embalado ainda por uma trilha inspiradíssima de Alberto Iglesias, o filme merece todos os créditos por mostrar toda a complexidade do jogo político da Guerra Fria, sob a ótica dos britânicos. E ver a postura do protagonista, em seu último plano, é algo que fascina por permitir uma leitura bem mais abrangente daquele complexo indivíduo!

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