O HOMEM FAZ A SOCIEDADE OU A SOCIEDADE FAZ O HOMEM?

24/05/2014 16:05

 

Em minha curta experiência como professor de Sociologia no ensino médio, desde março deste ano, tenho reparado uma dificuldade recorrente por parte dos alunos no que diz respeito à forma como estes assimilam certos conceitos sociológicos. Tal dificuldade poderia ser em decorrência da forma como o professor repassa e socializa esses conceitos aos alunos. Entretanto, depois de feita esta auto-reflexão inicial – e depois de identificado que o problema não está apenas em nossa metodologia de ensino – novas hipóteses surgem em nosso universo teórico e metodológico afim de nos aprofundarmos na questão: a dificuldade em assimilar este ou aquele conceito sociológico pode ser decorrente de um processo educacional histórico mais amplo e arraigado? a resposta: sim, com certeza, se tomarmos como base que cada aluno é fruto de um processo histórico e que, junto à ele, vem arraigado uma série de políticas educacionais e didáticas diversas que o condicionaram a não pensar de forma abstrata, sendo necessário que o professor precise “reformular” o conceito dado de forma que este aluno associe àquela explicação à uma imagem representativa de seu cotidiano que o permita fazer a correlação entre o conceito e à sua realidade concreta.

Esta experiência de forma alguma se restringe à Sociologia, mas a todas as disciplinas da grade curricular do ensino médio, pois toda e qualquer disciplina tem por finalidade dotar os alunos sobre o significado dos conceitos e leva-los a compreender suas respectivas realidades por meio deles. Entretanto, para que não ocorra uma ampliação desnecessária do foco, fiquemos apenas na Sociologia. A algumas semanas atrás, ao elaborar minha avaliação bimestral para o 1º ano, lancei uma única pergunta que, se num primeiro momento era extremamente simples, por outro revelava nas entrelinhas uma abrangência que os obrigava a lidar com diversos conceitos estudados no primeiro bimestre. A pergunta era: O homem faz a sociedade ou a sociedade faz o homem? Tal pergunta incluía, neste contexto, a articulação de conceitos como: indivíduosocializaçãosociedade e também de interação e estrutura social. O problema, neste caso, residia não no que diz respeito à conceituação do indivíduo, do homem, mas sim no que se refere à sociedade, sendo esta vista pelos alunos como entidade individual e não como estrutura complexa dotada de particularidades históricas, sociais, culturais, econômicas e políticas, mesmo que, na prática, o professor tenha pontuado cada uma destas complexidades para o aluno.

A fim de discutir sobre estas questões, gostaria de trazer à pauta um artigo publicado na Revista de Sociologia (Edit. Escala, s/ ano), intitulado “A Sociedade em queda livre”, escrito por Emerson Sena da Silveira e que traz como discussão justamente a noção que temos sobre quem prepondera sobre quem, ou seja, a sociedade sobrepõe-se ao indivíduo ou é o contrário? Neste sentido, quais conceitos trabalhados no artigo são importantes para compreendermos como se dá essa importante relação entre homem e sociedade e que a princípio parece ser uma dicotomia de difícil abstração por parte dos discentes do ensino médio.

Segundo o texto, Silveira nos apresenta a certas definições sobre a ideia da sociedade colocando-a como sendo esta um exercício tirânico da maioria (classe dirigente e dominante) sobre a minoria (classes desfavorecidas). Esse exercício tirânico se daria por meio de sanções formais e informais em resposta ao não-seguimento de certas regras sociais. Outro exemplo bastante pertinente refere-se à sociedade como “uma massa compacta, pronta a triturar as pessoas (...). Seria ele [o indivíduo] que por meio de suas ações e em interação com outros, cria o social e toda a estrutura que dá suporte ao nosso mundo”. Em relação à este último, Silveira prossegue dizendo: “o indivíduo que pode optar por qualquer raio de ação é porque possui liberdade de escolha (...), sendo a sociedade, no máximo, um delírio de um sociólogo durkheimiano fanático”. Para Silveira, este mesmo indivíduo que aparece como “vítima” é também o princípio social no que se refere tanto para compreendermos esta sociedade quanto para as políticas sociais e econômicas dos governos. Entretanto, prossegue Silveira, “aos olhos de marxistas inveterados, o indivíduo é uma invenção burguesa cuja função (...) é dominar e entorpecer as consciências e impedir a ‘luta de classes’”.

A fim de embasar seus argumentos (até porque tanto uma quanto a outra definição tem lá sua quantidade considerável de incongruências), Silveira recorre às explicações do sociólogo alemão Norbert Elias quando este faz uma importante crítica ao que ele chama de antíteses e dicotomias entre os conceitos clássicos tanto de indivíduo e sociedade, quanto de natureza e cultura. Para ele, estas dicotomias não explicam satisfatoriamente a realidade social por justamente construir oposições teóricas ao invés de compreendê-las em sua complementaridade, pois, dessa forma como bem aponta Elias, produz-se um imperativo sobre quem é realmente importante, ao invés de se buscar compreender como cada uma delas pode se complementar num único e abrangente conceito. Além disso, tal imperativo conceitual observado anteriormente por Elias coloca o “indivíduo” contra a “sociedade”, uma vez que é a “sociedade” que impede o sujeito de desfrutar de uma vida ‘autêntica”.

Para Norbert Elias, “essa percepção de um ‘eu-interior’, oposto a um ‘mundo externo’ é típica das sociedades complexas que vivenciam o ‘processo de individualização’. Um complexo processo que envolve, além de questões sociais, a mediação do simbólico, da cultura”. Entretanto, mesmo com essa contribuição de Elias ao debate, outras questões parecem se impor ao fato de que, se realmente é importante entendermos indivíduo sociedade não como dicotomia mas sim como conceitos complementares, essa contribuição não anula outras questões mais pragmáticas, como por exemplo, como se dão os limites desta complementariedade conceitual? Até que ponto as liberdades e escolhas individuais são determinados pela estrutura social vigente? Que margem de manobra os indivíduos tem na sociedade para fazer escolhas racionalmente desvinculadas da estrutura social vigente ou essas escolhas são determinadas ideologicamente por esta? 

São questões plausíveis e que ajudam a ilustrar o quão complexo é o debate. Desta forma, condicionam também a própria forma como encaramos o saber e o fazer sociológico, já que a Sociologia não nos oferece apenas um ponto de vista para explicar tudo, mas várias perspectivas diferentes. Para Peter Berger (1996, p. 173, 179), esta “diversidade teórica” tende a gerar certas “tensões” conceituais que, segundo ele, podem ser resumidos em dois importantes questionamentos seminais: a) estudar a sociedade a partir dos grupos sociais ou dos indivíduos e suas ações? b) conhecer a sociedade para transformá-la ou para apenas compreendê-la? Nestes dois casos, se impõem historicamente o próprio papel do sociólogo em relação às sociedades que estuda. Para Karl Marx, por exemplo, era necessário um posicionamento político nos estudos em que se desenvolvia, de ação concreta e transformadora da realidade social. Outros como Émile Durkheim, defendiam que a Sociologia deveria manter-se imparcial em relação ao seu objeto, cultivando uma posição privilegiada de observadora dos fenômenos sociais, não se envolvendo diretamente com compromissos políticos que pudessem retirar dela seu caráter axiológico, optando por se restringir à compreensão da realidade.

De qualquer forma, para Peter Berger, ainda existiriam dois níveis básicos de análise sociológica:

  1. Nível macrossocial: estrutura, funcionamento e dinâmica dos grandes fenômenos e instituições sociais, interpretados e explicados por causas externas, sociais e remetidos a esquemas teóricos que enfatizariam os comportamentos e crenças individuais como oriundas dessa estrutura maior;
  2. Nível microssocial: só existem as grandes ‘estruturas’ porque essas são mantidas pelos agentes e suas negociações de sentido no dia-a-dia. Neste caso, ‘negociação’ tem aqui o sentido de ‘jogos de poder’.

Mas segundo o autor, estes níveis estão em intensa relação pois um não subsiste sem o outro e ambos existem simultaneamente. Assim, para cada nível existe sua abordagem respectiva. Para Peter Berger, emerge assim o importante conceito de agente social que segundo o autor, tem mais liberdade de pensamento e ação. Para o autor, o aumento do fluxo de comunicação permitiu ao agente social reavaliar suas próprias crenças e valores, ao coloca-las em contraponto à outros valores e costumes socialmente diversos. Isso fez com que certas “formas de viver, consideradas ‘anormais’ por certa parcela da sociedade, [lançasse] dúvidas sobre instituições tradicionais, [podendo recusar-se] a reexaminar suas próprias crenças e [tendendo] a rejeitar as proposições da Sociologia, podendo também discriminar e, por vezes, reprimir com violência esses modos de ser”.

Neste aspecto, a contribuição de Pierre Bourdieu mostra-se fundamental ao estipular a existência de dois tipos de Sociologia – a espontânea e a crítica (ou científica) – sendo a primeira correspondente à opinião superficial e subjetiva do indivíduo em relação a qualquer coisa. Cria-se segundo Bourdieu, o saber imediato, a opinião superficial sobre um fato ou um evento. São opiniões eclipsadas por certas noções que se mostram, na maior parte do tempo, errôneas, insuficientes e carregadas de pré-noções. O exemplo mais flagrante disso diz respeito a todas a s formas de fluxo de comunicação de massa, dado o imediatismo e a falta de aprofundamento daquilo que se busca opinar. Uma falsa versão para aquilo que se pretende ser a verdade. As redes sociais, por exemplo, são o principal exemplo deste ciclo contínuo e acelerado de informações que encontram neste tipo de mídia um espaço frutífero e por vezes perigoso de “manipulação da verdade”. Este tipo de “espontaneidade opinativa” apontado por Bourdieu, embaça a percepção e impede um aprofundamento sociológico dos fenômenos sociais. Essa perspectiva pode explicar, também, o porque é tão difícil para discentes do ensino médio se aprofundarem criticamente em determinadas questões e também porque eles apresentam uma dificuldade latente de baixa abstração teórica.

Entretanto, existem outras perspectivas a se considerar, segundo Bourdieu, quando se trabalha a questão da “sociologia espontânea”, sobretudo no que diz respeito, segundo ele, da existência de dois tipos de senso comum, um popular e outro erudito: o primeiro se refere ao que é produzida e reproduzida pela população não-culta, os indivíduos comuns. O segundo diz respeito àquele tipo de senso comum que os “especialistas” usam sem a devida autocrítica das noções e conceitos usados para embasar seus argumentos teóricos. Para a Sociologia crítica é preciso que se avaliem e examinem frequentemente as noções usadas corretamente, “investigar sua história, os usos que se fazem dele e para qual finalidade”.

Há ainda outro fator, apontado por Bourdieu e defendido por Emerson Silveira, sobre o fato de que não é possível escapar das condições objetivas da estrutura social. Tudo o que o indivíduo faz, vivencia e presencia está moldado por essas condições objetivas impostas pelas estruturas sociais. Nossos modos de ver, sentir e viver são profundamente determinados por esta irremediável realidade que definem a própria forma que os outros nos veem ou percebem, dependendo da posição social que você ocupa na sociedade, pois a estratificação social de classe – marginalizados, assalariados, classe média, ricos e milionários – define, a partir de sua profunda desigualdade, o seu status na sociedade, gerando situações de desvalorização ou mesmo de racismo dissimulados (não-oficializados) em relação às classes mais desfavorecidas do estrato social.

Esse tipo de relação viciosa nos faz voltar, logicamente, ao ponto de partida desta problematização: é a sociedade que se sobrepõe ao indivíduo ou é o contrário? Como já vimos, esta resposta deve ser tomada globalmente e não tomando um ou outro como perspectiva relevante.

Para teóricos como Durkheim e Marx, a estrutura é maior que o indivíduo, independente e dotado de leis. Entretanto, outro postulado reivindica a ideia de que a sociedade é anterior à estrutura social, sendo esta estrutura social tal qual a conhecemos uma realização histórica do ideário contratualista inglês, ou seja, a tese desenvolvida por Thomas Hobbes de que o homem, sendo ‘naturalmente’ egoísta, agressivo e competitivo, resolvem se juntar e instituírem por meio do contrato tácito, um grupo organizados de indivíduos que os guiassem por meio de leis e regras formais. Em outras palavras, o Estado, tomando para si a liberdade individual e construindo em torno de si uma estrutura social que o permita governar tais indivíduos.

Nesta perspectiva, é relativamente divergente a tese do sociólogo Herbert Blumer, pois para este autor não existe uma coação formal entre a estrutura social e os indivíduos, mais uma interação simbólica onde os indivíduos partilham historicamente certos ‘signos’. Tais signos remetem diretamente à cultura, onde os ‘significantes’ e os ‘significados’ explicam tanto a interação dos indivíduos entre si quanto a relação destes com as estruturas mais complexas da sociedade. Explica também as situações de comportamento em que os indivíduos se permitam simbolicamente se colocar no lugar do outro e vice-versa. É uma perspectiva compartilhada pela corrente sociológica chamada de “interacionismo simbólico” (ou “Microssociologia”), geralmente difundida entre sociólogos americanos. Para esta corrente, dois postulados ganham força na análise sociológica: a primeira diz respeito à construção de regras sociais – tanto legais quanto culturais – a partir da relação e negociação entre dois ou mais agentes sociais, quando um sentido para uma determinada regra social sai do plano da abstração e passa a se realizar concretamente. O segundo postulado diz respeito à consideração dos fatos sociais como realizações práticas mediadas pela linguagem, ou seja, para entender como se dá a relação entre os mais diferentes atores sociais, é preciso atender sobre como se comunicam, seja a partir da apreensão daquilo que se fala, como se fala e o que se oculta no ato da fala.

Assim, tomando em retrospectiva todas as análises aqui apresentadas, podemos chegar à conclusão que a resposta para a pergunta que se estabelece no título deste artigo, (o homem faz a sociedade ou a sociedade faz o homem?) depende muito sobre que ponto de vista se pretende orientar sua análise, visto que a Sociologia não se reduz  a uma única e determinante perspectiva, apresentando-se como uma construção histórica, social e simbólica, compreendida na totalidade dos indivíduos e dos grupos sociais constituintes da sociedade, além da forma como ambos se socializam. Talvez, neste sentido, a resposta mais satisfatória, embora rasa, seja: ambos se fazem, a partir das condições sociais, históricas, e culturais que cada sociedade tem a seu dispor, estabelecendo dessa forma uma complexa rede de relações com o intuito de perpetuar estruturas historicamente dadas e socialmente consolidadas.

A partir desta resposta sociologicamente incompleta é possível para os interessados mergulharem a fundo em suas próprias investigações, pois somente dessa forma vão se permitir ao exercício da abstração. Uma dica que certamente é válida sobretudo para o discente do ensino médio que queira se aprofundar nos meandros desta fascinante ciência que é a Sociologia.  

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