SETE HOMENS E UM DESTINO

09/07/2014 11:28

 

Cotação: 4/ 5

 

Uma das principais reclamações dos cinéfilos no que tange à remakes diz respeito à forma desrespeitosa com que os produtores tratam as obras originais, desvirtuando-as a fim de dar conta de necessidades mercadológicas meramente superficiais e supérfluas. Entretanto, há aquelas que conseguem sair-se melhor do que as originais justamente por explorar aspectos – técnicos ou narrativos – que as obras anteriores claramente eram inferiores. Há, contudo um terceiro tipo de remake que consegue se colocar num ponto de equilíbrio entre ambos os aspectos acima mencionados, sintetizando a obra original num longa de duração menor sem contudo se mostrar inferior, mas à altura do filme que o inspirou, como é o caso aqui do ótimo Sete Homens e um Destino e de seu antecessor, a obra-prima japonesa Os Sete Samurais, do mestre Akira Kurosawa.

E para esta adaptação, produzido e dirigido por John Sturges, nada melhor do que adaptá-la ao gênero que mais se aproxima da história original de Kurosawa, já que a rigor, Os Sete Samurais assemelhava-se a um faroeste ambientado no universo icônico dos samurais no Japão feudal. Assim, ambientando a história no velho Oeste americano (e na fronteira com o México, obviamente) o filme consegue captar o ambiente de Kurosawa sem a necessidade de maiores adaptações espaciais ou mesmo narrativos.

Assim, contando a história de uma pequena comunidade de agricultores constantemente saqueados pelo bando de Calveira (Eli Wallach), o filme rapidamente mostra estes habitantes discutindo sobre a possibilidade de reagir à estes saques, chegando à conclusão pragmática que esta reação só será possível com a ajuda de mercenários habilitados para tal tarefa, e que estejam dispostos a treiná-los e trabalhar para estes agricultores por um tempo determinado e a preço irrisório. Assim, com a ajuda do mercenário Chris (Yul Brynner) e do pistoleiro Vin (Steve McQueen) conseguem arregimentar um pequeno exército de sete mercenários dispostos a cumprir a tal tarefa.

Neste sentido, assim como o clássico japonês, cada membro deste diminuto e corajoso exército tem suas razões próprias para aceitar este impossível trabalho. No entanto, por ser um filme de 202 minutos de duração, Os Sete Samurais conseguem desenvolver bem melhor os subtemas relacionados a seus personagens, ao passo que aqui estes subtemas são apenas sugeridos em pequeníssimas passagens de um ou outro personagem, concentrando-se, ao invés disso, em fabulosas seqüências de ação que, arrisco dizer, são bem mais empolgantes do que o original, pois conseguem explorar com mais dinamismo a locação e sua favorável geografia (uma pequena vila na fronteira entre o México e os EUA), ao passo que Os Sete Samurais exploram pouquíssimas possibilidades geográficas e espaciais em sua trama.

Mas se Sete Homens e Um Destino são bem-sucedidos na condução de sua ação, é impossível não comentar sobre a forma datada com que o diretor John Sturges (e a maioria dos cineastas de qualquer gênero até a década de 1960) retratou a violência do filme, pois é impossível para o espectador dos dias de hoje, tão familiarizado com a violência gráfica dos filmes contemporâneos, se chocar ou se sentir tocado por tiros que claramente não causam nenhum tipo de impacto físico naquele que recebe a bala, um tipo de abordagem que só mudaria no cinema a partir da ousadia estética e narrativa do mestre Sam Peckimpah.

Mas se John Sturges parece pertencer à “Velha Escola do Western” onde o sangue é mostrado moderadamente, é graças também à este clássico estilo que outro aspecto é mostrado de forma fabulosa neste filme: a ameaça real do bando de Calveira e que aqui é mostrada logo de início, quando vemos o sujeito saquear a vila dos agricultores (vila essa que nunca tem seu nome revelado) e, num misto de ironia e falsa camaradagem, rouba os amedrontados agricultores. E é neste momento que Eli Wallach se mostra a escolha perfeita para o papel pois sua persona cinematográfica encaixa-se de forma perfeita ao personagem.

Em relação aos outros personagens, destaque para a dupla de protagonistas Yul Brynner e Steve McQuean, que trazem leveza a um filme cuja proposta é claramente entreter sem esquecer, contudo, do perigo que representa Calveira. Além disso, destaques também para a ranzinice e a dureza de James Coburn e Charles Bronson, personagens muito parecidos, mas que diferem quanto à forma como os atores conduzem seus personagens.

Além destes aspectos narrativos, não posso deixar de salientar a belíssima trilha claramente épica do filme, bem como da fotografia, que se utiliza de elementos cênicos para determinar o caráter de seus personagens e destacá-los do restante (como o figurino “preto” de Brynner contraposto ao vermelho ameaçador de Walach).

Em se tratando de um faroeste inspirado num belíssimo filme, Sete Homens e Um Destino não desaponta em nenhum momento, divertindo na maior parte do tempo e emocionando em momentos pontuais, equilibrando-se entre a melhor tradição do western americano e o drama maduro que Hollywood costuma fazer de tempos em tempos.

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