TRASH - A ESPERANÇA VEM DO LIXO

11/10/2014 00:26

 

Cotação: 4/ 5

 

 

Quando Stephen Daudry se envolveu com a adaptação do livro Trash, de Andy Mulligan, a obra se passava num “país fictício e subdesenvolvido”. Entretanto, devido a relação do cineasta inglês com Fernando Meireles, Daudry optou por escolher o Brasil como locação para a história de Rafael, Gardo e Rato que, depois de encontrarem uma carteira recheada de dinheiro e alguns objetos, passam a ser perseguidos pela polícia e vindo a descobrir que a carteira pertence a um sujeito cuja fuga levou-o a esconder uma fortuna sabe-se lá aonde.

Iniciando seu filme com uma cena crucial extraída de um determinado ponto da narrativa, Daudry e o roteirista Richard Curtis (e seu colaborador Felipe Braga) voltam no tempo para contar a partir de flashbacks e vídeos-depoimentos (que comentam a trama) a história de José Angelo (Wagner Moura), mostrando-o se livrando da carteira porém sem conseguir fugir da polícia. E percebam como é particularmente eficiente que Stephen Daudry e o seu diretor de fotografia Adriano Goldman utilizam-se da entrada das viaturas policiais no lixão para poder apresentar aquele cenário ao espectador, não demorando muito para identificarmos Rafael e Gardo (Rickson Tevez e Eduardo Luis) entre os entulhos e vê-los finalmente descobrindo o tal objeto perdido.

Um objeto que muda irremediavelmente o cotidiano daqueles amigos: vítimas de um contexto de miséria e privações, o dinheiro da carteira serve para aplacar momentaneamente a fome dos amigos, mesmo que os gastos passem logo a chamar a atenção dos policiais vistos ali. E é por causa desse suspeito interesse que os dois amigos passam sentir uma certa curiosidade sobre a real importância do objeto, entendendo instintivamente que não devem repassar a carteira à polícia, mesmo tendo recompensa. E é nesse ponto que entram em cena outros personagens fundamentais na jornada dos protagonistas, como Miss Olivia (Rooney Mara) e Pe. Julliard (Martin Sheen), além do fascinante e complexo Rato (Gabriel Weinstein).

Aliás, é interessante que, mesmo se tratando de um filme do sub-gênero “caça ao tesouro”, Daudry e Curtis acertam no tom correto da narrativa ao equilibrar humor e drama sem comprometer o andamento do longa. E usar Wagner Moura como uma presença constante em flashbacks é eficaz justamente pelo fato desses momentos representarem visualmente “como” ocorreu a criação das pistas que levam ao tal “tesouro” e o significado destas para os três amigos. Além disso, em nenhum momento a jornada de Rafael, Gardo e Rato deixa de se mostrar tensa e perigosa, sobretudo por causa da interpretação marcante de Selton Mello, que aqui cria um vilão cuja presença incomoda e gera tensão sobretudo por causa de sua frieza, calculismo e ameaça, um contraponto perfeito à presença humana de Wagner Moura, cujo semblante triste aos poucos vai dando lugar a um sujeito que deliberadamente (e ideologicamente) envolveu-se numa situação cujos resultados sabia ser irremediavelmente trágico.

E se Wagner Moura e Selton Mello demonstram seu talento costumeiro, é na fabulosa interpretação do trio de protagonistas que o filme sempre acerta: desde Eduardo Luis, que sempre traz graça e energia como Gardo, passando pelo ótimo Rickson Tevez, que, centro da narrativa, surge eficiente sobretudo nas cenas mais dramáticas, como na tensa cena onde ele se vê na mira de um revolver, e na interação com os colegas de elenco (e o abraço fraternal com Wenstein são um daqueles momentos breves, tocantes e repleto de significados), isso sem falar no eficiente papel de “líder” que o personagem inevitavelmente assume.

E já em relação à Gabriel Wenstein, o ator, absurdamente carismático, conquista o público logo de cara pois, surgindo em cena como um jovem sujo e cheio de micoses pelo corpo, mostra-se logo como um rapaz capaz de se livrar de qualquer situação, levando-nos imediatamente a torcer por ele. E além de se mostrar sempre brincalhão, também consegue se sair bem em cenas mais dramáticas, como o já citado abraço fraternal com Tevez e no instante em que Rato precisa roubar dinheiro da paróquia a fim de ajudar os amigos, uma cena que ganha complexidade graças ao auxílio do veterano Martin Sheen, absolutamente à vontade interpretando em português, na maior parte, e mostrando-se sempre um pároco preocupado com o bem-estar daquela comunidade, esbanjando uma bondade e uma fé que sempre encontram eco nas ações de Rafael, Gardo e Rato, demonstrando eficientemente o respeito destes pelo padre e por tudo o que ele prega.

Rooney Mara, por sua vez, surge no “piloto automático” e pouco à vontade, mal falando o Português, desperdiçando até mesmo bons momentos dramáticos, como aquela envolvendo a tensa interação com Selton Mello e empalidecendo, em comparação, com a breve mas absurdamente tocante, inesquecível, delicada e reveladora participação do veterano Nelson Xavier, que em apenas duas cenas emociona o espectador e passa uma fabulosa impressão.

Contando também com uma paleta de cores quentes que salientam o universo cenográfico do lixão, a fotografia de Adriano Goldman merece créditos também por contrapor estes momentos àqueles, passados na favela ao redor, quando a polícia literalmente fecha o cerco aos amigos e que, logicamente, são retratados visualmente por uma paleta mais escura que ajudam a ressaltar o clima de tensão e perigo que rondam os protagonistas. Além disso, a ótima edição de Elliot Graham também merece aplausos por saber utilizar da estrutura aparentemente complexa do primeiro ato sem contudo parecer truncada ou difícil. E até mesmo os vídeos mostrando os três amigos comentando a trama ganham uma orgânica e simples justificativa no segundo ato que facilitam ainda mais a compreensão do espectador. E é também particularmente eficaz trazer a imagem e a voz de Wagner Moura sempre que um dos protagonistas estão lendo uma carta ou mesmo refletindo sobre uma determinada pista. E por último, devo mencionar a boa trilha de Antonio Pinto, que se sai melhor sempre que deve salientar as passagens mais dramáticas do filme, dando-lhe ótima profundidade.

Entretanto, a despeito das ótimas interpretações e da narrativa absorvente, o mérito do longa reside mesmo em sua subtrama, a corrupção. Rodando seu filme exatamente no período das manifestações de julho passado, Daudry utilizou-se com propriedade deste evento para dar substancialidade ao seu filme e pontuá-lo com referências aos quais todos podemos nos identificar. E mesmo que o monólogo proferido por certa repórter soe em alguns trechos incomodamente maniqueísta, como a expressão “um lugar contaminado por corrupção” (como se o Rio fosse o único lugar do mundo a sofrer deste mal), isso contrapõem-se tematicamente à libertária cena onde o destino do “tesouro” é mostrada. E, finalmente, o happy end brinda o espectador com um instante de felicidade que surge como um alívio depois de toda aquela jornada perigosa e surpreendente.  

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